E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, no final de uma semana em que a actualidade internacional segue marcada por violentos protestos estudantis na França, com estudantes inclusive a atearem fogo a professores, com mais de 60 trabalhadores escolares feridos e 500 escolas incendiadas.
Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, no final de uma semana em que a actualidade internacional segue marcada por violentos protestos estudantis na França, com estudantes inclusive a atearem fogo a professores, com mais de 60 trabalhadores escolares feridos e 500 escolas incendiadas. Tudo devido ao que alegam ser falta de condições nas escolas, falta de professores, salas cheias, edifícios com falta de manutenção... Os nossos estudantes coitadinhos que aguentam escolas “dos Três Cocós” - alguns felizes porque pelo menos têm vaga que é mais do que os vários milhões de crianças que ficam fora do sistema de ensino todos os anos em Angola -provavelmente se iriam rir das queixas dos homólogos franceses. São assim as assimetrias condicionantes a que estamos habituados e que continuam à espera de correção a nível global.
A actualidade internacional foi marcada ainda pela resistência à morte da primeira mulher com ordem de execução nos últimos dois séculos nos EUA, que está novamente a acender o debate sobre a legitimidade da pena de morte, sobre se o Estado deve ter o direito de ceifar vidas que não criou, sobre a validade do castigo, e sobre a sua exequibilidade, com a condenada a desafiar a facilidade de implementação da sentença. Está em estado crítico, mas depois de duas doses letais, não morreu. E agora? A sentença está cumprida? Ou o Estado vai continuar a tentar? A segunda dose foi legal ou abusiva? Caso recuperasse das lesões que lhe foram infligidas com o falhanço na tentativa de assassinato pelo Estado, poderia processar ela o Estado pela incompetência em matá-la? Perguntas não faltam mas a verdade é que o falhanço - que já está a ser explicado com a falta de qualificações do pessoal que administrou a dose letal e que terá falhado as veias (porque não é pessoal médico já que os médicos estudam e formam-se para salvar vidas e não estão nem tão pouco autorizados pelas ordens a participar nesses festivais de matança), o falhanço já levou ao cancelamento das outras execuções que estavam na calha para os próximos tempos, e está tudo a questionar-se se não será sinal de que são indevidas. Mau marketing para os adeptos da pena de morte que felizmente foi banida em Angola, ou teríamos muitas situações de falhanços administrativos de várias estirpes, de penas erradas e de acusações de bruxaria e por aí fora. Decisão acertada do “Clarividente.” A propósito de “Clarividente”, outro pequeno ‘deus na terra’, este de terras lusas, está a passar pela queda aparatosa do Olimpo porque JES passou depois de atirado pelo seu delfim. Cristiano Ronaldo abandonou a seleção lusa na Dinamarca devido ao que parece ter sido um desentendimento com o seleccionador que não o pôs a jogar.
A saga, muito portuguesa, está a dividir opiniões de um tempo a esta parte, a cada participação de Ronaldo pela selecção. De um lado os que o veem como menino mimado que exige jogar quando já não consegue devido à idade, e do outro os que os defendem como património nacional que deve ser preservado e que em campo ainda comanda a atenção dos defesas criando assim oportunidades para golo da equipa das quinas.
Acompanhei o início da carreira e a internacionalização de Cristiano Ronaldo, porque ele cresceu no Sporting, na altura em que estudava em Portugal, e porque sempre manteve a reguilisse que aprendeu de pequeno (certamente teve de se safar sozinho muitas vezes e porque talvez venha com o pacote da obstinação com a superação) nunca fui fã incondicional, apesar de lhe reconhecer os méritos em campo: a disciplina, fora dele, a vontade e a capacidade de vencer.
Mais recentemente, e muito graças ao meu sobrinho que chora pelo Ronaldo, que é obcecado pelo futebol, por causa do Ronaldo, que o imita a cada golo, que sofre com ele, comecei a perceber porque é que o Ronaldo é tão mais do que o que é em campo e por que é que a mesquinharia sobre a sua idade de reforma ou estrelismo se torna tão extemporânea. É que por todo o mundo há crianças a imitarem a celebração de vitória, imagem de marca do CR7. Literalmente por todo o mundo. Ele vive no plano do sonho de milhares de crianças por mérito próprio, talvez mais do que Lionel Messi, que também vive nesse plano, mas menos por disciplina e talvez mais por dom. Ronaldo significa para milhões de jovens e crianças a possibilidade de superação pelo trabalho, pela dedicação, pelo foco. Isso é um capital que atrelou a Portugal e que os portugueses não poderiam nunca pôr em causa por causa de uma birra qualquer. A marca, avaliada em quase mil milhões de dólares, o merchandising vendido por causa de Ronaldo ao longos dos anos, biliões de dólares e a bandeira portuguesa reconhecida globalmente, não são mais importantes do que este efeito de exemplo de superação no imaginário de milhares de crianças e jovens que decidiram que o foco no que querem merece toda a dedicação por inspiração de Ronaldo. O que se vê é como se o Brasil decidisse destratar publicamente Pelé, ou a Argentina o Messi ou o Maradona. É feio. São ícones cujo estágio da vida profissional deve sempre ser tratado com essa reverência, goste-se ou não de Ronaldo, a nível pessoal.
A marcar a actualidade nacional estiveram outras histórias de angolanos com foco, com disciplina e com vontade, não de estrelato, mas de entrarem para os quadros da função pública de norte a sul do país. E as imagens que encheram as redes e que foram testemunhadas pela equipa de reportagem do Valor Económico em visita à província do Cunene Sul, expõem o país real. O país que contrasta tanto com a imagem do aeroporto dos 15 milhões de passageiros, dos megacentros de conferências e com o metro de superfície que o executivo projecta como parte da Angola moderna que governa. Expõe o país da falta obscena de transportes, pior para os interprovinciais, que leva à especulação no preço dos bilhetes com aumentos de 100%. Expõe a falta de fiscalização e corrupção que permite esses abusos. Que permite que jovens sejam amontoados na traseira de camiões, aos solavancos, a tentar sobreviver aos buracos nas estradas. Expõe acampamentos improvisados, com filas intermináveis sem alimentação, sem água, sem saneamento; expõe a falta de condições de recepção nas províncias fora de Luanda, a pobreza estrutural que quebra o turismo e que mata o turismo interno. As dormidas ao relento sem condições, os erros administrativos; as denúncias de batota, a exposição à especulação, corrupção, exploração são tudo o que se vai tornando corriqueiro a cada concurso público e que o Estado e os ministérios insistem em não corrigir. E agora pergunto eu por que é que as instituições não aprendem com os próprios erros? Tivemos recentemente as mesmas tragédias com o recrutamento do Ministério do Interior, o Ministério da Saúde, onde andava, que não viu o que devia evitar?
O desespero dos angolanos para entrar para a função pública, para além de ser usado para influenciar votações, continua a denunciar a presença crónica e esmagadora do Estado na economia, a denunciar a necessidade de conforto que numa economia com o potencial da angolana, só pode ser reflexo da asfixia da iniciativa privada pelo Estado cujo governo por aí anda a prometer que a incentiva... Mas é com respeito imenso pelo sofrimento dos candidatos esperançosos e esforçados, e esperança teimosa, querido leitor, que marcamos aqui encontro, e até à próxima, na sua Rádio Essencial.




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