Suely de Melo

Suely de Melo

Esta semana, fomos todos surpreendidos com o verdadeiro espetáculo de ilusionismo nas páginas do Plano Anual de Contratação Pública. Aquilo não é um documento contabilístico, é um manifesto surrealista. Ora, no Cazenga, a administradora Nádia Neto decidiu que o futuro das crianças passa por um investimento de um milhão de dólares para "brincar". Uma visão pedagógica revolucionária.

Quando se pensou que o ‘status quo’ finalmente daria lugar a um rasgo de oxigénio, e que o odor a mofo do pensamento único seria dissipado por eleições democráticas num dos braços do "Partido", eis que nos despejam um balde de água gelada, ou, pelo menos, em aqueles que acreditaram.

Se existe um país com o dom divino de transformar o mais pacato cidadão num "revú" de primeira linha, esse país é, sem dúvida, Angola. Não é apenas má gestão: é arte. Parece haver um gozo quase erótico em pisotear, humilhar e desdenhar de um povo que, de tão sofrido, já deveria ter um lugar cativo no céu, até porque o inferno já vivemos aqui. Há quem diga que sim, mas eu duvido que nos mereça.

O exercício que fazemos aqui todas as semanas começa a soar a esquizofrenia. Os assuntos parecem ser sempre os mesmos, assim como os seus autores. A única coisa que muda é a crescente certeza de que andamos aqui a falar para as paredes! Os analistas que por aqui passam, felizmente, não criticam por puro desporto. Eles escancaram os problemas, mas mais importante, apontam caminhos e soluções. Mas já dizia Filomena Oliveira: ELES SÃO SURDOS. E a pressa com que o PR veio a público responder à empresária, é a prova cabal de que ela acertou no diagnóstico.