Suely de Melo

Suely de Melo

Discursos há que precisam de uma análise profunda. Precisam de passar pela academia. Ser objecto de estudo. Não pelo conteúdo complexo e filosófico, de difícil compreensão, como é o caso dos temas abordados por Immanuel Kant, por exemplo, mas para se perceber o que realmente passa pela cabeça dos que os concebem, porque afinal até o que parece não fazer sentido precisa de ser estudado, compreendido. É o caso dos discursos de João Lourenço, tanto enquanto presidente do MPLA como enquanto Presidente da República. Se ele próprio escreve, se são escritos. Se são revisados ou se ele acha que não precisam. Se é ‘freestyle’, o facto é que dão sempre, impreterivelmente, azo a muita discussão. Ora, no lançamento da agenda política do MPLA, o seu presidente, além de outras pérolas a que já nos vem habituando, vociferou que o seu partido fez mais em 50 anos do que o colono em 500. A comparação por si só já é grosseira e despropositada, na medida em que, como historiador, o líder do MPLA tem a obrigação de saber que o colono não cá veio para melhorar as condições dos nativos, mas, salvo melhor alcance racional, para explorá-los, a eles e aos seus recursos, em beneficio próprio. Elementar. 

DIPLOMaCIA. Especialistas perspetivam mudanças nas relações entre os dois países. “Recuo” e ou “relaxamento” são alguns dos cenários esperados nas relações, em caso de derrota de Biden.

 

E nesses dias que andaram, foi só vir à tona o relatório da ONG CARE, segundo o qual a crise humanitária em Angola é das mais esquecidas no mundo, tanto pelos média, quanto pelos governantes, que o Executivo já começou a tirar as cartas da manga.

Bem-vindo aos Dias Andados nas terras do turismo da poeira e das estradas esburacadas e enlameadas.

Nestes dias que andaram, ficamos a saber, pelo Presidente da República, que há afinal quem goste desse turismo, digamos, mais rústico. Descobrimos que as crateras existentes nas nossas estradas e que muitas dores de cabeça dão a muito boa gente afinal são picadas que atraem os mais aventureiros. Talvez por isso se invista em material de tão pouca qualidade para as construir, de modo a que fiquem ao gosto do freguês. Que avisasse antes que não passava de uma estratégia para angariar turistas e teriam poupado muito praguejo e maldizer! Descobrimos que, afinal de contas, a poeira é outro ponto atractivo do nosso grande e belo país. A ser assim é preciso fazer contas sobre o número de turistas atraídos para a província do Cuanza-Sul, tida como a líder em matéria ‘poeirística’…

A frase clichê usada para dar esperança e alento aos menos afortunados e mantê-los a acreditarem nas promessas e garantias de melhores dias. Mas terão os angolanos motivos para acreditar nisso?