Suely de Melo

Suely de Melo

Se existe um país com o dom divino de transformar o mais pacato cidadão num "revú" de primeira linha, esse país é, sem dúvida, Angola. Não é apenas má gestão: é arte. Parece haver um gozo quase erótico em pisotear, humilhar e desdenhar de um povo que, de tão sofrido, já deveria ter um lugar cativo no céu, até porque o inferno já vivemos aqui. Há quem diga que sim, mas eu duvido que nos mereça.

O exercício que fazemos aqui todas as semanas começa a soar a esquizofrenia. Os assuntos parecem ser sempre os mesmos, assim como os seus autores. A única coisa que muda é a crescente certeza de que andamos aqui a falar para as paredes! Os analistas que por aqui passam, felizmente, não criticam por puro desporto. Eles escancaram os problemas, mas mais importante, apontam caminhos e soluções. Mas já dizia Filomena Oliveira: ELES SÃO SURDOS. E a pressa com que o PR veio a público responder à empresária, é a prova cabal de que ela acertou no diagnóstico.

Angola Chegou à Meia-Idade, e agora? Passaram os fogos de artifício, a euforia, as celebrações pomposas, os abraços calorosos, as mensagens de felicitação, as almoçaradas de lagosta e os grandes espetáculos…

Mais uma semana de Outubro se encerra, a última por sinal, e em Angola, a sensação é que estamos sempre a preparar um grande evento. Seja uma cimeira internacional, a inauguração de uma mina histórica, ou a apresentação de um plano de vários anos para a próxima geração de líderes resolver. Mas já lá vamos… Prioridade para mais um encontro dos camaradas…

E não é que o recém-intitulado "Pai da Reconciliação", se desmarcou do Congresso Nacional da Reconciliação? Que surpresa! Quem diria que o campeão da união nacional arranjaria "outras agendas" justo no momento em que a História ameaçava ser reescrita? Estava eu, confesso, com a alma em suspenso, ansiosa por testemunhar o milagre. O país inteiro pronto para ver João Lourenço e Adalberto Costa Júnior num aperto de mão tão caloroso que faria derreter o gelo das desconfianças acumuladas em décadas. Imagino a cena: lágrimas de crocodilo, sorrisos forçados e a promessa solene de que, a partir daquele congresso, passaríamos a olhar-nos como... bem, PELO MENOS, como irmãos que moram em casas separadas, mas que se cumprimentam com a cabeça quando se cruzam. Afinal, a Reconciliação em Angola não é um processo, é um evento.