MPLA, quem te viu e quem te vê…
O que têm Higino Carneiro e Valdir Cónego em comum?
Bem, além de serem militantes do mesmo partido, o destino encarregou-se de os colocar na mesma encruzilhada partidária. “Ambos, os dois, em conjunto”, descobriram na carne, no osso e a duras penas que o MPLA educa e que João Lourenço é pai grande. Um, depois de quase esfarelar os joelhos numa peregrinação em Fátima, percebeu que, afinal, não é só orar. Aliás, a própria Bíblia diz que fé sem obra é morta. Por isso, o homem despiu a veste de pregador, vestiu a capa de arrependido e pediu desculpas públicas ao líder supremo. Já o general nadou, nadou, nadou, mas não saiu da beira. Aviso, convenhamos, não lhe faltou. Quando João Lourenço sinalizou que não passaria o testemunho "a quem estivesse mais cansado do que ele", era para ter percebido a mensagem. Parece, contudo, que o líder do partido não acompanhou as redes do General. Não percebeu o quanto ele se esforçou no seu gym particular e exibiu uma vitalidade física quase invejável, para afastar qualquer aparência de cansaço. De nada valeu o suor. O líder, deu uma de Pôncio Pilatos, lavou as mãos e passou a responsabilidade de aniquilar a candidatura ao Comité Central, que foi para a reunião com a lição devidamente estudada. Restou ao general 4x4 assistir, na fila da frente, à própria deflagração. Mas se a direcção do partido esperava que o General baixasse a cabeça e fizesse também um pedido de desculpa, enganou-se na porta. Menos contundente, é verdade, e com a síndrome ACJ, pediu serenidade, mas recusou vergar-se. Lembrou que a fidelidade ao partido “não exige a renúncia ao pensamento próprio” e criticou implicitamente a falta de transparência ao sublinhar que a democracia interna exige “regras claras, procedimentos transparentes e condições de igualdade”. O Bulldozer avisou que não desistiu e que a sua história não termina aqui. Continuará o general 4x4 a enfrentar o status quo e terá peito alto suficiente para impugnar o congresso do partido do seu coração? Veremos…
Mas cá entre nós… é bom que estas coisas aconteçam entre eles. Que se abocanhem, que implodem e que o público assista. Este espetáculo desfaz o mito da unanimidade e expõe as fissuras de um poder que já não consegue disfarçar o medo. Para os que ainda veem alguma esperança no "partido dos camaradas", fica a prova provada de que democracia interna e liberdade de expressão continuam a não ser o forte do maioritário. E que fique bem claro, o comportamento que se pratica dentro das paredes da sede transborda inevitavelmente para a governação do país. Se entre eles, perante figuras históricas, com uma história de vida umbilicalmente ligada à do MPLA, não há respeito pelas regras de igualdade, pela pluralidade e pelos estatutos, como pode ser o contrário com o resto da oposição, com a sociedade civil e com o cidadão comum?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 23 de Outubro de 2026




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