E agora pergunto eu...

30 Sep. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço, onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que a actualidade mundial andou marcada pelos discursos dos líderes mundiais na tribuna das Nações Unidas.

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço, onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que a actualidade mundial andou marcada pelos discursos dos líderes mundiais na tribuna das Nações Unidas.

Desde 1955 que o Brasil fala primeiro e o presidente brasileiro foi objectivo e pragmático. Disse que os venezuelanos merecem decidir o seu próprio destino, descreveu o embargo a Cuba como castigo colectivo ilegal, disse que o genocídio em Gaza é levado a cabo pelo presidente que iria tomar depois a mesma tribuna, disse o seu nome: Netanyahu. E teve de explicar ao que devia ser um grupo de nações de facto unidas, o que devia ser um adquirido, que o Brasil não pertence ao quintal de nenhuma outra nação, que não precisa de porta-aviões nas suas águas – não precisou de dizer quem os pôs lá - e que quem quiser os recursos naturais brasileiros que vá construir oportunidades dentro do Brasil porque essa riqueza pertence aos brasileiros.

Trump falou pouco depois... Um contraste violento. Naquele estilo inenarrável que o personifica, qual pavão de penas em leque, elencou o que entende serem as “suas vitórias”, incluindo a paz em Gaza - apesar de Israel continuar a matar palestinianos e a terraplanar o  território que vai ocupando - incluindo o que descreveu como “o maior negócio da história e que reuniu 65 mil milhões de barris de petróleo, sessenta por cento do petróleo do planeta”, quando as suas forças militares aprenderam Nicolás Maduro números de apoio desmentidos pelo NYC Times; “ao vencedor, pertencem os espólios”, disse em voz alta para todos ouvirem. Um resumo do objecto das intervenções militares que os EUA levam a cabo ou apoiam. “Espólio.” Todas as guerras porventura se poderão resumir ao espólio...

O líder de Israel falou dois dias depois e a maior parte dos presentes levantou-se da cadeira em protesto e saiu da sala. Delegações inteiras, onde se incluiu a de Angola para nosso orgulho, saíram. Foram também causa de orgulho a condenação do embargo a Cuba e do genocídio de populações indefesas pelo presidente angolano.

É verdade que o chefe de Estado e do estado de coisas resvalou… decidiu, por exemplo, usar as suas medalhas e medalhinhas como exemplo de reconciliação, criticou a falta de água e de comida noutros territórios como criminosa quando em Angola nem metade da população tem acesso a água segura para beber e 40 por cento das crianças sofrem de má nutrição crónica. Mas apontar o dedo ao genocídio perpetrado pelos amigos Israel e EUA quase vale um passe nas críticas ao resto do discurso, pelo menos nesse campo esteve no lado certo da História.

É que é impressionante como ‘os cães ladram e a caravana passa’ mesmo naqueles fóruns em que supostamente todos são ouvidos. É impressionante a impotência a que são votados, mesmo os que se consideram mais poderosos nos seus respectivos cantos. Netanyahu teve até mesmo um mandado de captura do TPI e mesmo assim discursa em sede das Nações Unidas. Dão-lhe as costas, mas ele está lá, apesar de o mundo assistir a como mata crianças em Gaza, pelo menos 20 mil 179, com o Vaticano a dizer que mais de 40 mil estão ainda soterradas nos escombros. E o mundo a assistir a discursos do responsável.

Depois das delegações se levantarem e saírem, andou um mandatário, presumivelmente do governo israelita, a tomar diligentemente nota de quem saiu em protesto. Daí que se se virem nos próximos tempos mais uma série de problemas governativos e golpes patrocinados por Israel por aí, poderemos voltar à lista de quem saiu em protesto da sala e lembrar do porquê.

Os trágicos movimentos xenófobos na África do Sul, que sempre existiram, mas que tomaram um fôlego anormal e com aspecto de patrocinado nos últimos tempos (com os principais agitadores a mostrarem sinais de riqueza recente) foram relacionados por analistas com a queixa que a África do Sul fez ao Tribunal Penal Internacional e que levou ao mandado de captura de Netanyahu.

Os juízes que ordenaram o mandato, esses foram proscritos pelos EUA e pelos sistemas financeiros que dominam, perdendo mesmo a capacidade de pagar transportes ou escolas dos filhos, tudo porque aborreceram o governo de Netanyahu… Quando dizem que tudo isto tem dono… não se duvide.

Entretanto, entre nós, para além da saída do chefe - mais uma em que aproveitou para pedir refinanciamento, perdão de dívidas e mais créditos, e agora pergunto eu, será que não ocorre que os potenciais credores olhem para, por exemplo, o quanto gasta em viagens e decidam que não é um bom investimento? E quem diz o que gasta em viagens diz o que gasta em supérfluos como centros de conferências aos molhos e outras estruturas que mais provavelmente irão ficar às moscas na maior parte do tempo? Em aeroportos multibilionários para servir de "placa giratória" para África... Investimentos em multiplicadores económicos substanciais não se vê...

Na semana que passou o ministério da Educação conseguiu evitar que a greve dos professores continue a estragar sucessivamente o ano escolar às crianças. Mas o quadro de fundo, a conjuntura de falta de condições sociais - que levou a essa greve e a outras como a do pessoal hospitalar, do pessoal da Justiça e do dos Transportes, que também marcou a actualidade com ameaças de greve - esse quadro mantém-se. O custo de vida das famílias manteve-se elevado. E, por mais  maquilhagem nas estatísticas que se aplique (como usar o emprego informal que depois se prejudica com políticas obtusas de perseguição aos vendedores, fecho de mercados sem  alternativas viáveis de receita para essas famílias, etc) tudo isto resulta em falta de condições transversais a todos os sectores. Com a devida excepção talvez para quem assina os contratos públicos ou faz a cobrança de impostos e seus amigos. Mas é com esperança sempre querido leitor, que marcamos aqui encontro, e até à próxima, na sua Rádio Essencial. 

 

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico