E agora pergunto eu...

28 Oct. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde já sabe, perguntar não ofende, depois de uma semana em que a actualidade nacional girou em torno do congresso dos camaradas que, ao estilo do chefe de Estado e do estado de coisas se tornou numa sessão de adestramento humano - para não dizer canino porque não se viu nenhum animal de quatro patas - o que não significa que não se tenha visto de duas...

E agora pergunto eu...
Mário Mujetes

Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde já sabe, perguntar não ofende, depois de uma semana em que a actualidade nacional girou em torno do congresso dos camaradas que, ao estilo do chefe de Estado e do estado de coisas se tornou numa sessão de adestramento humano - para não dizer canino porque não se viu nenhum animal de quatro patas - o que não significa que não se tenha visto de duas...

Militontos, não procurem nestas palavras o ultraje, porque ultrajante, ultrajante mesmo, foi a sessão de adestramento a que estiveram sujeitos pela mão do chefe de Estado e do estado de coisas... Segundo relatos o presidente cortou a palavra ao ‘wannabe’ candidato e general - ser general já não é o que era - ao general Higino Carneiro - o 4x4 que ‘atolou’ no ‘pântano’ que é este partido. E retirou-lhe a palavra aos três minutos de fala... explicando  a interrupção com o ‘fastidioso que se tornava o discurso’...

E agora pergunto eu... mas é para respeitar uma turba que se deixa ser tratada com este grau de arrogância? Três minutos de fala podem tornar-se fastidiosos para alguém que há uns dias nos submeteu a todos a um discurso de quase quatro horas na Assembleia Nacional? Coerência básica? Se três minutos são fastidiosos para alguém que fala quase quatro horas, o que diz essa atitude, primeiro de quem a toma, e depois de quem a aceita lá entre eles? Como é possível respeitar um grupo tratado como - nem diria como crianças em público porque nem com as crianças se deve falar com tal desrespeito, hipocrisia e paternalismo - como é possível? Onde está a vértebra destes mais velhos e jovens que continuam a defender a unidade, legitimidade, prazo de validade deste partido? Onde? E o que é que o chefe sabe que se calhar nós não sabemos que o leva a não aceitar, nem ouvir, nem deixar ouvir, muito menos concorrer com o general HC? O que é que legitima o poder do chefe no seu entender? Ganhar com 99% sozinho ou concorrer e ganhar com menos, mas com concurso de facto? Muitos desentendimentos com as noções básicas de democracia e eleições têm estes camaradas que já estão a organizar o pleito onde se espera que votemos todos querido leitor...

Pelo menos o mérito de expor essa ausência de coluna vertical ninguém há de tirar ao chefe de Estado e do estado de coisas. Esse e outros méritos como as salas de conferências bonitas e enormes que tem andado a inaugurar e a incentivar o uso que vai drenando mais fundos públicos para eventos de charme e ocasião que estão longe de ‘resolver os problemas do povo’ (do mote dos camaradas). A semana já tinha começado com uma antecâmara desse exercício de adestramento de camaradas na forma do pedido de desculpas reiterado pelo ex-dissidente Valdir Cónego, que veio depois do apoio ao líder do mais velho Boavida Neto... coitados.

A política realmente vai se revelando um pardieiro tal em que só dispostos a emporcalharem-se até à alma persistem com algum sucesso, é perturbadora a lembrança de que as pessoas em posições de decisão ou que nos representam podem estar expostas, sujeitas a comprometer quaisquer valores pessoais, até o amor-próprio em nome da sobrevivência política. É quase de dar dó com um misto de terror porque esta vulnerabilidade, extensiva a quem está no aparelho de Estado, traduz-se em estarmos todos sujeitos às políticas executadas por gente traumatizada, ameaçada, disposta a vender a alma e com ela quaisquer princípios. Sabemos que essa pressão política capaz de degenerar o melhor intencionado existe sim, mas é sempre um misto de repulsa e desgosto quando a vemos em acção em todo o seu esplendor como vimos esta semana.

É que há formas dessa pressão se materializar mais elegantes... não menos insidiosas e porventura até mais funcionais, certamente muito menos ofensivas como o que temos vindo a ver. Por exemplo com as estatísticas que o chefe de Estado e do estado de coisas vem citando como prova de que tem governado muito, muito bem. As estatísticas do emprego são um bom exemplo: enquanto o chefe se regozija com uma diminuição do desemprego na ordem de dez pontos percentuais em relação a 2024 para 21,3%, o quadro do emprego que é contabilizado revela porque é que a pobreza multidimensional cresceu exponencialmente na década ‘lourencista’ apesar dos números tão bonitos que o chefe apresenta.

Na semana que passou o Valor Económico trazia uma reportagem sobre estas estatísticas de emprego em algumas províncias que servem de base para as estatísticas apresentadas se tornarem tão relativas como se tornou relativa a fome como descrita pelo presidente... A província do Huambo apresenta uma taxa de emprego de 78,2%. Números excelentes, daqueles que o chefe gosta de citar. No entanto, a informalidade atinge os 90%, o que significa que esse emprego é precário, pode lá estar hoje e amanhã não. Mas significa pior e passo a citar o texto do VE “na província do Huambo onde a taxa de desemprego é de 17%, a agricultura representa 73,8 do emprego total, com 44,5%, quase metade sendo trabalhadores familiares sem remuneração ou que produzem para consumo próprio, enquanto 43,9 trabalham por conta própria.” Por conta própria significa que também não têm remuneração estável e que dependem do sector agrícola que muitas vezes não rende e dá prejuízos desde a produção ao escoamento dessa produção...

Os trabalhadores não remunerados são uma realidade constante nas províncias com predominância da actividade agrícola e os que trabalham por conta própria estão expostos também a remunerações dependentes dos humores atmosféricos. Num país de jovens, quase metade está inteiramente desempregada e outro tanto entregue a empregos informais, muitas vezes não remunerados ou com remuneração inconstante ou esporádica, com a qual não conseguem ter previsibilidade de renda que permita compromissos como créditos ao banco, pagamentos de propinas de saúde e afins... Essa instabilidade de renda, fruto da informalidade, que nas quatro províncias em análise pelo VE nomeadamente Malange, Cunene, Lunda Sul, Huambo e Cabinda, em que a taxa de informalidade mais baixa é de 74,3% (em Cabinda) - essa instabilidade impacta directamente na qualidade de vida das famílias e conduz a esse ciclo vicioso de pobreza multidimensional que contrasta no terreno com os números risonhos apresentados pelo chefe. Mas já passamos os três minutos, querido leitor e para evitar fastios, é com esperança sempre que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial. 

 

 

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico