Sindicato dos Médicos exige valorização dos quadros nacionais após nova vaga de especialistas estrangeiros
O Sindicato dos Médicos defende que a recente contratação de 341 médicos especialistas estrangeiros deve ser acompanhada por uma estratégia clara de valorização dos profissionais nacionais, com especial foco nos reformados e nos que exercem no sector privado. A reacção surge após a autorização do Presidente da República, João Lourenço, para a entrada dos novos quadros no país.
Em declarações ao Valor Económico, o secretário-geral do Sindicato dos Médicos, Manuel Adriano, reconheceu a profunda carência de especialistas em áreas cruciais como gastroenterologia, neurologia, neurocirurgia, endocrinologia e reumatologia. O responsável admitiu que a aposta em profissionais expatriados pode mitigar as deficiências do sistema de saúde, desde que estes contribuam de forma efectiva para a formação dos médicos locais. Contudo, alertou para os elevados custos suportados pelo Estado e questionou o subaproveitamento da capacidade formativa já existente no país.
A nova vaga de peritos é viabilizada pelo Despacho Presidencial n.º 397/26, que aprova uma despesa de 26,598 milhões de dólares e autoriza o procedimento de contratação simplificada com o grupo russo ZDRAVEXPORT. Trata-se de uma medida idêntica à adoptada em 2023, ano em que o Executivo recrutou o mesmo número de especialistas por um montante de 26,5 milhões de dólares. O Governo justifica o investimento com a necessidade premente de assegurar a assistência médica nas unidades sanitárias públicas de todo o território nacional e garantir a especialização de médicos angolanos.
Apesar de compreender a urgência da medida, a liderança sindical lamenta a ausência de um compromisso mais firme com os médicos angolanos de comprovada experiência, nomeadamente os que já atingiram a idade de reforma. Segundo Manuel Adriano, estes profissionais poderiam ser recontratados para apoiar a formação das novas gerações com custos significativamente inferiores aos praticados com os especialistas estrangeiros.
“Devemos também contratar os médicos angolanos reformados”, defende Manuel Adriano, que considera possível pagar-lhes, pelo menos, metade do valor destinado aos profissionais expatriados.
O sindicalista recordou que, segundo a informação de que dispõe, Angola paga cinco mil dólares ao Governo cubano por cada médico cubano contratado. A mesma possibilidade, sustentou, deveria abranger médicos especialistas que trabalham em unidades privadas, como as clínicas Gerasol, da Endiama e Multiperfil. Na sua avaliação, existem nestas instituições profissionais com competências que poderiam contribuir para a formação especializada em Angola.
Além dos custos e da valorização dos quadros nacionais, o líder sindical chamou a atenção para a necessidade de seleccionar especialistas estrangeiros em função das carências efectivas do país e da sua capacidade de comunicação com os profissionais e os pacientes.
Para Manuel Adriano, os médicos contratados devem corresponder às especialidades de que Angola realmente necessita e, acima de tudo, falar português, e que a falta de domínio da língua, alertou, já tem prejudicado tanto o processo de formação dos médicos angolanos como a própria assistência aos pacientes.
Apesar das reservas quanto ao aproveitamento dos quadros nacionais e à exigência do domínio da língua local para uma melhor interacção, Manuel Adriano reconheceu que o país não conseguirá responder às necessidades de saúde apenas com os médicos angolanos actualmente disponíveis e defendeu, por isso, uma combinação entre a contratação de especialistas estrangeiros e o reforço da formação e integração dos profissionais nacionais.







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