ECONOMIA INTERNACIONAL | FINANCIAMENTO AO DESENVOLVIMENTO

FMI e Banco Mundial sem respostas concretas para travar o agravamento da crise nos países em desenvolvimento

28 Oct. 2026 Valor Económico Mundo

 

 Reuniões das instituições financeiras internacionais terminaram sem novas medidas para enfrentar o aumento do serviço da dívida, as tensões geopolíticas e os riscos associados à inteligência artificial. 

FMI e Banco Mundial sem respostas concretas para travar o agravamento da crise nos países em desenvolvimento
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Os países em desenvolvimento saíram das reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizadas na semana passada, sem respostas concretas para enfrentar o aumento dos encargos da dívida, os efeitos das guerras no Médio Oriente e na Ucrânia e os riscos de uma eventual bolha no sector da inteligência artificial (IA).

Durante um encontro entre o FMI e Banco Mundial, a directora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, reconheceu que os pagamentos do serviço da dívida dos países em desenvolvimento mais do que duplicaram numa década, passando a representar, em média, 14% das receitas governamentais e a admitiu que persistem mais dúvidas do que respostas, sobretudo em relação ao impacto da inteligência artificial. “Estamos numa situação em que temos muito mais perguntas do que respostas”, afirmou, alertando para o risco de confiar em quem apresenta soluções definitivas para um fenómeno cujas consequências ainda não são inteiramente conhecidas.

A falta de orientações concretas foi também criticada por Josh Lipsky, vice-presidente de Economia Internacional do Atlantic Council. Na sua avaliação, as reuniões perderam uma oportunidade de apresentar medidas práticas de apoio aos países em desenvolvimento, num momento em que as economias avançadas enfrentam os seus próprios desequilíbrios orçamentais e o risco de uma crise fiscal.

O responsável considerou que esta conjuntura, associada às prioridades políticas internas de vários países, tem reduzido a importância atribuída à ajuda ao desenvolvimento.

Mauricio Cardenas, antigo ministro das Finanças da Colômbia e investigador da Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade de Columbia, afirmou que muitos responsáveis políticos terminaram os encontros receosos de que possa ocorrer uma deterioração económica significativa, mas sem um plano claro para enfrentar os riscos.

Segundo Cardenas, tanto o FMI como o Banco Mundial reconhecem a transformação em curso e procuram compreender os efeitos da inteligência artificial, mas ainda não conseguem apresentar recomendações específicas sobre como preparar as economias para as mudanças que poderão ocorrer.

Crescimento mais lento e desigualdade

Apesar de a economia mundial ter resistido melhor do que o esperado ao choque energético associado à guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, as perspectivas de crescimento deterioraram-se tanto nas economias avançadas como nas economias em desenvolvimento.

Ayhan Kose, vice-economista-chefe do Banco Mundial, afirmou que a recessão global foi evitada, mas alertou para a desaceleração da actividade económica. Segundo os dados apresentados, o crescimento nas economias em desenvolvimento caiu de 4,4% para cerca de 3,6%, enquanto metade das economias avançadas já registava um abrandamento.

Kose advertiu ainda que a capacidade de resistência demonstrada perante os choques recentes não garante que as economias consigam suportar novas perturbações. A sucessão de crises energéticas, geopolíticas e financeiras mantém a incerteza sobre as perspectivas globais.

A desigualdade constitui outra preocupação. Kate Pickett, professora da Universidade de York, defendeu que as políticas económicas devem privilegiar um crescimento mais inclusivo, em vez de se concentrarem exclusivamente em reformas estruturais rigorosas. Na sua perspectiva, o agravamento da pobreza e das desigualdades poderá gerar custos económicos e sociais mais elevados a longo prazo.

“Não basta descrever uma economia como resiliente. Ela só é resiliente para os ricos e privilegiados”, afirmou.

Investimento privado não elimina desafios

Embora não tenha anunciado novas medidas específicas, o Banco Mundial mantém o foco na preparação dos países em desenvolvimento para os avanços da inteligência artificial, procurando mobilizar mais capital privado. Segundo Kose, esse financiamento é actualmente três vezes superior aos níveis de 2022.

Contudo, a mobilização de investimento privado continua a coexistir com dificuldades persistentes na atracção de investimento estrangeiro e com cortes acentuados na ajuda oficial ao desenvolvimento.

O balanço das reuniões deixa, assim, um problema por resolver: enquanto o serviço da dívida absorve uma parcela crescente das receitas públicas e o crescimento abranda, os países em desenvolvimento continuam a receber recomendações de ajustamento económico sem que tenham sido anunciados novos instrumentos concretos capazes de responder, em simultâneo, às pressões financeiras, às desigualdades e à transformação tecnológica.