eleições no Brasil

Flávio Bolsonaro vence primeira volta, mas Lula resiste e domina nos municípios mais pobres

05 Oct. 2026 Valor Económico | com agências Mundo

O Brasil terá de ir a uma segunda volta para decidir a eleição presidencial. Flávio Bolsonaro, filho do antigo Presidente do Brasil, saiu em vantagem na primeira volta ao alcançar 47,03% dos votos, conseguindo mais do que o actual Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, que ficou pelos 45,16%. A diferença de cerca de 2,2 milhões de votos contrariou a expetativa de uma vitória do actual chefe de Estado logo na primeira fase e deixou o cenário aberto para o dia 25 de outubro.

Flávio Bolsonaro vence primeira volta, mas Lula resiste e domina nos municípios mais pobres
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Flávio Bolsonaro obteve 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões do actual Presidente, num resultado que também reforçou a representação do Partido Liberal (PL) no Senado, e com 99,99% das urnas apuradas, os dois candidatos avançam para a segunda volta, marcada para 25 de Outubro.

Após a divulgação dos resultados, Lula reconheceu que esperava vencer a primeira volta, mas afirmou que a disputa permanece aberta para a segunda fase. “Eu estava convencido que eu ia ganhar a eleição no primeiro turno”, afirmou, acrescentando que a segunda volta será “a hora da prova dos nove”.

Na avaliação do actual Presidente, a escolha entre as duas candidaturas deveria considerar a experiência acumulada por ele e pelo candidato a vice-presidente, Geraldo Alckmin. Lula destacou os 16 anos de experiência de Alckmin à frente do Estado de São Paulo e os seus 12 anos de Governo, associados ao que classificou como uma política de inclusão social.

“É simples escolher o candidato a Presidente e o vice, o Alckmin, com 16 anos de experiência de governar o Estado mais rico do país, e eu, com 12 anos de experiência de fazer a melhor política de inclusão social da história deste país. O povo tem que escolher”, afirmou.

Ao comparar as duas candidaturas, Lula criticou o grupo político adversário e questionou o seu histórico. Segundo o candidato do PT, a disputa colocaria, de um lado, a experiência de Governo e, do outro, um cenário que classificou como marcado por incertezas e suspeitas.

“E, do outro lado, nós temos apenas incerteza com a biografia de um passado tenebroso. Não existe nada que possa vislumbrar um horizonte promissor para a sociedade brasileira”, declarou fezendo  referências a alegadas ligações de integrantes do grupo adversário com milícias e crime organizado, além de mencionar suspeitas relacionadas a assassinatos no Rio de Janeiro. 

O candidato petista mencionou ainda o Banco Master e afirmou que os episódios relacionados à instituição deveriam ser esclarecidos durante a campanha. Na sua avaliação, contudo, a discussão eleitoral deveria concentrar-se também no projecto de país a apresentar aos eleitores.

“Tudo isso vai ficar claro, mas, mais claro, para mim, para o Lula, é a gente mostrar que Brasil que a gente quer construir”, disse.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresentou o resultado como uma mudança no cenário político brasileiro e afirmou que a votação representa, na sua perspectiva, o fim do ciclo de predominância do Partido dos Trabalhadores.

“Está decretado o fim da era do PT”, afirmou associando  o legado dos governos petistas a resultados negativos em diferentes áreas, citando a violência contra as mulheres, o endividamento das famílias, a carga tributária, a desesperança e o encerramento de empresas.

“A era do PT, que só está deixando como legado o recorde de mulheres assassinadas, o recorde de brasileiros endividados, o recorde de altos impostos, o recorde de desesperança, o recorde de empresas fechadas”, declarou.

Flávio Bolsonaro afirmou estar satisfeito com a possibilidade de, nas três semanas seguintes à primeira volta, os eleitores darem uma resposta definitiva nas urnas.

“Eu estou muito feliz com a possibilidade real de, daqui a três semanas, o Brasil dar uma resposta definitiva”, disse. 

Para a segunda volta, o candidato defendeu um Governo com uma estrutura administrativa mais reduzida e apresentou como prioridades a redução do número de ministérios e a defesa do que classificou como recuperação da democracia.

Na sequência, o candidato do PL criticou ainda Lula pela sua actuação política e afirmou que o actual Presidente estaria concentrado na manutenção do poder.

“Depois de tudo que o Lula fez, gastando mais de 350 mil milhões de reais para tentar vencer as eleições, o que eu tenho para falar é que o Lula está disputando o poder”. “Ele já disputou sete eleições presidenciais. Sete eleições presidenciais. Ele está preocupado com o poder. Eu estou preocupado com o futuro do Brasil. Eu estou disputando o Brasil”, acrescentou.

Na parte final da declaração, Flávio Bolsonaro apresentou a candidatura como uma oportunidade de assumir a condução do país e dirigir as políticas públicas para as necessidades da população.

“Eu quero a oportunidade de cuidar do Brasil. Eu quero a oportunidade de cuidar do povo brasileiro. Eu quero a oportunidade de cuidar de você que está me assistindo”, afirmou.

O candidato terminou a declaração apelando à mobilização dos seus apoiantes e associando a segunda volta a uma perspectiva de mudança. “E é assim que eu vou fazer, com muita energia, com muita alegria e com muita esperança, porque o Brasil vai vencer!”, concluiu

PL amplia presença no Senado

Além da vantagem presidencial, o principal resultado político para o PL ocorreu no Senado, onde o partido elegeu 19 dos 54 senadores escolhidos no pleito. A formação, assim,  passa a projectar a maior bancada da Câmara Alta, com a possibilidade de alcançar 28 lugares na composição do Senado.

Por outro lado, o  Movimento Democrático Brasileiro (MDB) elegeu sete senadores, enquanto o PT conseguiu aprenas seis, um  resultado que  representa uma alteração bastante significativa na correlação de forças da Casa, sobretudo porque o PL passa a reunir uma bancada mais numerosa e com maior capacidade de influência sobre a agenda legislativa.

No país, entre os Estados onde o PL conseguiu eleger dois senadores estão Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina. A lista de eleitos inclui nomes ligados directamente ao núcleo político da família Bolsonaro, entre os quais Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro.

A votação para o Senado também expôs dificuldades de partidos associados ao Governo de Lula da Silva. Em São Paulo, Marina Silva e Simone Tebet ficaram de fora da disputa pelos lugares em jogo, derrotadas por candidatos identificados com a direita.

Lula perde votos face a 2022

Apesar de ter avançado para a segunda volta, Lula registou uma redução da sua votação em comparação com as eleições de 2022. O Presidente recebeu cerca de 53,9 milhões de votos, menos aproximadamente 3,4 milhões do que na eleição anterior. De acordo com a CNN, nos mil municípios brasileiros com os menores rendimentos, Lula manteve a liderança em 971. No entanto, a sua percentagem média nesses municípios caiu de 73,76%, em 2022, para 69,78% no actual pleito.

Flávio Bolsonaro, por outro lado, liderou em 967 dos mil municípios com os maiores rendimentos. Nessa faixa, o candidato do PL obteve 26,26% dos votos, acima dos 21,29% alcançados pelo seu pai, Jair Bolsonaro, em 2022.

A diferença de comportamento entre os municípios de maior e menor rendimento evidencia uma divisão territorial e socioeconómica do eleitorado brasileiro. Lula continua a concentrar uma parcela significativa do apoio nas regiões e municípios de menor rendimento, enquanto o candidato do PL amplia a vantagem entre os sectores de maior rendimento.

Municípios de baixa renda mantêm apoio a Lula

Entre os municípios brasileiros onde Lula manteve uma votação expressiva estão Uiramutã e Manari, ambos entre os locais de menor rendimento do país. O candidato petista também conservou vantagem em grande parte dos municípios de perfil económico semelhante. O comportamento, contudo, não foi uniforme. Alguns municípios de maior rendimento mantiveram apoio a Lula, enquanto determinadas cidades de menor rendimento votaram maioritariamente no candidato do PL.

Neste sentido, Niterói e Porto Alegre aparecem entre as excepções ao padrão observado, onde os resultados mostraram que o rendimento, região e composição do eleitorado continuam a influenciar a distribuição do voto, mas não determinam isoladamente a escolha presidencial.

PL avança também nos Estados

O crescimento do PL não ficou limitado à eleição presidencial e ao Senado. O partido também ampliou a sua presença nas disputas pelos governos estaduais, podendo conquistar pelo menos cinco governos em 2027.

Entre os candidatos associados ao partido que avançaram ou aparecem em posição competitiva estão Sérgio Moro, no Paraná, Marcos Rogério, em Rondônia, Arthur Henrique, em Roraima, Zucco, no Rio Grande do Sul, e Jorginho Mello, em Santa Catarina.

No Rio de Janeiro e no Amazonas, as disputas permanecem em aberto e serão decididas na segunda volta. No Rio de Janeiro, Douglas Ruas enfrenta Eduardo Paes, numa disputa que coloca novamente em confronto forças políticas de direita e sectores ligados ao actual 

Segunda volta será marcada por alianças

A segunda volta, prevista para 25 de Outubro, coloca Lula e Flávio Bolsonaro numa disputa que deverá ser definida pela capacidade de cada campanha de atrair os eleitores dos candidatos eliminados na primeira fase. Com nenhum dos dois candidatos a atingir a maioria absoluta dos votos válidos, as alianças partidárias e a transferência de votos dos candidatos derrotados passam a ter um peso maior na definição do resultado, refere a CNN. 

O desempenho do PL no Senado e nos governos estaduais dá a Flávio Bolsonaro uma base política mais ampla para a segunda volta. Lula, por sua vez, parte para a fase final da eleição com a necessidade de recuperar parte dos votos perdidos em relação a 2022 e ampliar o apoio fora dos seus principais redutos eleitorais.

A eleição entra, assim, na segunda volta com uma disputa presidencial ainda aberta e uma correlação de forças legislativa mais favorável ao PL, que sai da primeira fase com maior representação no Senado e presença reforçada nas disputas estaduais.