Seca provocada pelo El Niño agrava risco de fome no Sudão
Precipitação atingiu mínimos históricos em várias regiões do país, devastado por mais de três anos de guerra.
O Sudão enfrenta um novo agravamento da crise alimentar, com a seca associada ao fenómeno climático El Niño a comprometer as colheitas e a criação de gado, num país onde milhões de pessoas já sofrem de fome devido ao conflito armado iniciado em 2023.
Segundo a Reutrs, a redução dos combates em algumas regiões tinha alimentado a expectativa de uma recuperação da produção agrícola e de uma diminuição da fome durante a época das colheitas, prevista para Novembro e Dezembro. No entanto, a falta de chuva e as temperaturas elevadas estão a comprometer essa perspectiva, sobretudo nas zonas onde a agricultura de sequeiro assegura grande parte da produção alimentar.
Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), as precipitações registadas entre Julho e Setembro, período de maior intensidade da estação chuvosa, foram as mais baixas em mais de três décadas no conjunto do país. No estado de Darfur do Norte, no oeste, os níveis ficaram nos mais baixos desde 1984, ano em que uma fome devastou o Sudão e a Etiópia. Em Kordofan do Norte, no centro, foi o registo mais baixo desde 1990, enquanto em Gedaref, no sudeste, foi o menor desde 1991.
Num alerta divulgado a 12 de Outubro, o sistema global de monitorização da fome (IPC), apoiado pelas Nações Unidas, advertiu que o risco de fome está a aumentar em várias zonas afectadas pelo conflito, com a seca a agravar uma situação humanitária já crítica.
Em Junho, o IPC estimou que 5,1 milhões de pessoas enfrentavam fome severa no Sudão. Os números estão a ser actualizados, mas a expectativa de redução durante a época das colheitas está agora ameaçada pelas condições climáticas adversas.
O Programa Alimentar Mundial (PAM) prevê que mais 350 mil pessoas enfrentem fome severa até ao final de 2026. Até Agosto de 2027, o número adicional poderá atingir 1,2 milhões, segundo estimativas partilhadas com doadores por Samuel Clendon, responsável pelo programa da organização no Sudão, em declarações à Reuters, em Outubro.
As regiões de Darfur e Kordofan estão entre as mais afectadas. Além dos efeitos da seca na agricultura e na pecuária, o conflito continua a dificultar o acesso aos alimentos e a agravar a vulnerabilidade das populações.
No estado de Kordofan do Norte, a agricultora Mariam Omar relatou perdas nas suas culturas, que deveriam estar próximas da colheita, mas permanecem ressequidas num solo arenoso. «Este ano é terrível», afirmou, enquanto retirava ervas daninhas da sua pequena exploração agrícola nas proximidades da localidade de Um Ruwaba.
A situação ameaça prolongar a crise alimentar num país onde já foram identificados focos de fome, sobretudo em áreas cercadas ou afectadas directamente pelos combates.







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