4 horas de ilusão é demais, senhor Presidente!...
Pela décima, e graças a Deus, última vez lembrámos que para ouvir o Chefe de Estado falar à Nação, não basta sentido de cidadania. É preciso treino cardiovascular, resistência física e uma capacidade olímpica de não piscar os olhos.
Pela décima, e graças a Deus, última vez lembrámos que para ouvir o Chefe de Estado falar à Nação, não basta sentido de cidadania. É preciso treino cardiovascular, resistência física e uma capacidade olímpica de não piscar os olhos. Desta vez foram cerca de quatro épicas horas. Quase 240 minutos de sinfonia oratória no Parlamento. Uma autêntica maratona verbal, enquanto a bancada aplaudia com a disciplina de quem está bem consciente de que, para garantir o assento, a palma das mãos tem de sair a deitar fumo. E que belo país nos foi apresentado! Um país tão reluzente, tão próspero, tão matematicamente harmonioso que ao fim da quarta hora, eu própria queria saber em que aeroporto se apanha o voo para essa Angola encantada. O país, como todos vimos, e o próprio Chefe fez questão de enfatizar, converteu-se num autêntico canteiro de obras. Ergueram-se dezenas de hospitais com fachadas imponentes, cortou-se a fita inaugural, os holofotes brilharam e Angola saiu linda na fotografia. Mas essa fúria de betão foi directamente proporcional à queda da mortalidade? Ou, para não ser exigente demais, traduziu-se na mínima melhoria da qualidade do atendimento? Durante estes quase 10 anos tivemos o sindicato dos médicos a bater na mesma tecla: investir massivamente apenas em hospitais terciários sem fortalecer os postos de saúde, centros de saúde comunitários e medicina preventiva é uma estratégia ineficiente. Mas alguém lhes deu ouvidos? Claro que não. Nós cá gostamos é do grande, do imponente e do dispendioso. Ainda que não sirva pra nada! Na educação, a métrica do sucesso segue a mesma lógica surrealista. O Senhor Presidente em fim de mandato até teve a hombridade de assumir que continua a haver um número assustador de crianças fora do sistema e um défice crónico de professores, para logo a seguir se regozijar de que o orçamento para o sector em 2026 subiu para uns tristes 6,9%. A maka, Senhor Presidente, é que a experiência da vida real nos ensinou que estes orçamentos nunca são efetivados e a educação é sempre a primeira vítima a ver as suas verbas catanadas para alimentar prioridades que, na vossa sublime visão, são muito mais vitais para a sobrevivência do regime. E o combate à corrupção e ao nepotismo? Ah, esse continua a ser o prato principal e mais suculento do menu propagandístico. Segundo João Lourenço o nepotismo e o compadrio deixaram de ser práticas toleradas ou institucionalizadas. Seria cómico, se não nos deixasse uma leve sensação de que estão a tomar-nos a todos por parvos! Qualquer cego consegue ver a metamorfose do ecossistema de negócios. Os antigos grupos de poder deram lugar a novos grupos de poder, curiosamente com os mesmos hábitos, as mesmas cumplicidades e a mesma sede de contratos simplificados.
O nepotismo não morreu, apenas mudou de endereço e de apelido. Falar de transparência em meio a tanta fumaça exige uma dose admirável de coragem. Enquanto aos microfones o Chefe entoava louvores à boa governação e ao rigor orçamental, as revelações do Valor Económico tratavam de despir impiedosamente o rei, mostrando onde vai parar a fatia de leão do bolo público. E para fechar a cerimónia com chave de ouro, as autarquias não podiam passar ao lado. Segundo João Lourenço, a extrema "benevolência" do MPLA é a única razão para não terem aprovado sozinhos a última lei que falta. Só e apenas neste capítulo em específico é que se tornou imperativo haver "consenso". Maninhos e camaradas têm de se alinhar, porque aparentemente não há na história do parlamento angolano qualquer registo de matérias sensíveis a serem aprovadas atropelando a oposição... essa maioria que, como todos sabemos, sempre primou pela santa unanimidade! E pronto, ao fim de quatro horas, a sessão encerra. O Presidente bebe o último gole de água, arruma as folhas e recebe a derradeira ovação de pé. A Nação, devidamente "esclarecida", desliga a televisão, suspira e volta para a vida real. Seremos nós que nascemos com cataratas irreversíveis nos olhos e não conseguimos ver esta Angola cor-de-rosa, ou são eles que vivem numa redoma de luxo tão hermética que o ar da realidade simplesmente já não lá entra?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 16 de Outubro de 2026




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