E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana a nível internacional marcada por polémicas relacionadas com o genocídio dos nossos tempos, que acontece em Gaza todos os dias nos últimos três anos... e que, o nosso chefe - que foi dar as caras na tribuna das Nações Unidas - em raros mas reconhecidos rasgos de lucidez e estadismo critica em fóruns em que tem os ouvidos de outras nações, saindo um pouco do registo da Angola que ele pinta e que difere tanto da que vemos, para apontar, com a coragem que é necessária para o fazer, a violação gritante dos direitos humanos pelos amigos Israel e EUA. É certo que o faz em voz baixa e só de vez em quando, mas faz. E as vezes que o fez terão sido das poucas em que foi possível ter algum orgulho da liderança que nos representa. Espero que tenha coragem de continuar a falar contra o genocídio em Gaza e que o faça sempre que tiver oportunidade.
Uma dessas polémicas foi espoletada pelo rapper Mackemore que foi ‘ruado’ de uma digressão do artista Ed Sheeran, por condenar no palco esse genocídio, e outras intervenções militares com dedo ocidental. Disse: “Libertem a Palestina, libertem o Líbano, (onde Israel também faz as suas incursões neste momento), mas disse também: libertem Cuba, o Congo, o Sudão e o Irão.”
Fê-lo contrariando a posição geralmente neutra dos artistas, com relação ao genocídio e às políticas de guerra movidas quer por Israel quer pelos EUA, porque uma posição que critique o que Israel faz, é frequentemente castigada com perda de contratos, cancelamentos, blackouts e a morte de carreiras, que de outra forma poderiam bem ser promissoras e rentáveis.
Temos entre nós o mesmo fenómeno com os artistas que falem contra o sistema que apoia o partido no poder. Que o diga por exemplo o humorista Gilmário Vemba, que não consegue ir fazer actuações em Moçambique e já teve - se não estou em erro - dois vistos recusados porque ‘estiga’ o amigo da Frelimo – MPLA. Há mais exemplos como o cartoonista Sérgio Piçarra, que devia ser considerado património nacional ser presença assídua na nossa media pública, e que em vez disso, foi ‘cancelado’ nesses fóruns devido à crítica social inteligente e mordaz que faz através da sua arte. E há outros exemplos.
Vêm aí as eleições e vai começar o assédio aos artistas e a busca por aqueles que são compráveis para validar, por meio da sua arte, o trabalho medíocre do governo do partido que tem dinheiro para pagar cachês.
A outra polémica a nível internacional também foi um prémio especial do júri e uma ovação de vinte e quatro minutos e meio no festival de cinema de Veneza para o documentário, dirigido por dois israelitas: NAZA, um acrónimo para “Nezek Agavi”, que significa, em hebraico, a língua mais falada em Israel – “danos colaterais”. O documentário contém mais de duas dezenas de entrevistas feitas pelos dois israelitas aos seus ‘conterras’ altas patentes militares e dos serviços secretos e detalham como a morte de civis em Gaza é programada, é sistemática e dirigida, em violação de todos os tratados de direitos humanos, e que tem matado tantas mulheres, crianças e civis no território que Israel se recusa a reconhecer como Palestina e que conta mais de 70 mil corpos desde que a guerra começou. A reacção à estreia não se fez esperar, com o governo de Netanyahu a ameaçar uma série de órgãos de comunicação que se atrevam a passar o documentário no ar e a ameaçar os dois produtores israelitas com de tudo um pouco, incluindo a segurança das suas famílias e ... até perda de nacionalidade...
E agora pergunto eu, nós até temos incidentes em que as famílias dos críticos do regime sofrem represálias em Angola, mas o que faria o governo angolano com a possibilidade de retirar a nacionalidade aos seus críticos?
Esta comparação entre governo israelita e governo angolano não é tão virtual, nem tão exotérica quanto tudo isso... a necessidade de controlo das narrativas une tanto os dois países que Angola recorreu à expertise de Israel para estudar como fazer o controlo da narrativa pública no espaço virtual, também com recurso a perfis falsos na internet por exemplo e recorreu nada mais, nada menos do que a uma empresa israelita especializada em incursões dessa estirpe.
Uma investigação do Citizen Lab, uma Organização sem fins lucrativos internacional dessas a que regimes autocratas são alérgicos - e é daí que vêm as leis para as ONG e afins - e a que tive acesso esta semana na página do presidente de outra ONG de direitos humanos, a Friends of Angola, e que avisa para os efeitos perniciosos desses controlos de narrativa em época pré-eleitoral.
Para além desta denúncia, a marcar a actualiddae desta semana esteve a fórmula um dos barcos elétricos que trouxe as estrelas Will Smith novamente ao país e Lebron James uma aventura aquática que visa por Angola nos mapas internacionais do turismo, mas que coincidiu com outra realidade que mete água. Muita, muita água... uma realidade a que tivemos acesso através de um vídeo filmado no Huambo, em que se veem crianças de bata e mochila às costas equilibrarem-se num troco de uma árvore para atravessar um rio de correnteza muito forte, correndo risco visível de cair e ser levadas pela corrente - tudo para irem para a escola. Depois surgiram outros vídeos com as que não se aventuram no tronco e vão seguindo uma corda, e atravessam o rio cuja água corrente lhes ultrapassa a cintura... Segundo um jornalista da região com quem falei, as crianças procuram evitar um trajecto de mais de cinco quilómetros que as leva por uma ponte segura até à escola. Segundo esse jornalista, que também denunciou o tema, depois do vídeo cair nas redes sociais e indignar todos, de embaraçar a capital - particularmente quando o chefe vai falar na tribuna das Nações Unidas onde quer mostrar as maravilhas do seu trabalho no final de dois mandatos no leme dos destino do país - o governador foi a correr tirar o tronco que servia de travessia para a margem onde está a escola. Isto sem primeiro oferecer transporte alternativo para as crianças que aparecem no perturbador vídeo a fazer equilibrismo de mochila às costas.
Como é possível que se orgulhem do trabalho que fazem os nossos governantes quando crianças para irem à escola têm de desafiar a morte todos os dias? São coisas como essas e outras como a falta de escolas, de vagas, a falta de saneamento, a falta de merendas, a falta de professores a falta de escolas com casas de banho funcionais, a existência de aberrações como a “Escola dos Três Cocós” - assim baptizada pelo cheiro a dejetos e pelos escombros com que os alunos convivem sobre a qual escrevia o Novo Jornal no ano passado - são estes factores que resumem grande parte dos resultados da governação cinquentenária que temos. E que comemorou mais um dia - também ele não sem polémica - do Herói Nacional. Mas é com esperança sempre querido leitor que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.




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