E agora pergunto eu...

21 Oct. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço, onde perguntar não ofende depois de uma semana em que a Tesla apresentou o seu protótipo - projecto conjunto entre a Tesla e a Space Ex que o dono Elon Musk descreveu como “a melhor empresa de veículos aliada à melhor empresa de foguetões espaciais do mundo” produziu e que entre piruetas no ar voos suspensos e alta velocidade nos apresentou o futuro da mobilidade que está à porta. Admirável Mundo Novo.

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço, onde perguntar não ofende depois de uma semana em que a Tesla apresentou o seu protótipo - projecto conjunto entre a Tesla e a Space Ex que o dono Elon Musk descreveu como “a melhor empresa de veículos aliada à melhor empresa de foguetões espaciais do mundo” produziu e que entre piruetas no ar voos suspensos e alta velocidade nos apresentou o futuro da mobilidade que está à porta. Admirável Mundo Novo.

Entre nós, o contraste na ausência de novidade materializou-se no Discurso à Nação em que tivemos a mesma listagem quilométrica de execuções do executivo finalizadas, em projecto ou em processo, e que leva a perguntar se o querido leitor ouviu na íntegra as quase quatro horas de fala do seu PR na Assembleia da República? Se ouviu na íntegra, sem dormir, ou fazer scrolling no telefone? Estas perguntas são mais para o querido leitor que será também ‘militonto’ (essa expressão cunhada pelo Folha 8 e que é tão apropriada) e que vai pagando pela ‘militontice’ com castigos semelhantes, e que se vão tornando mais extensos a cada ano. E agora pergunto eu, será um discurso de quatro horas para mencionar reforma do IVA, três mil e noventa e três postos de saúde, hospitais, estradas, ruas, prédios para de facto ser ouvido? Como medir o impacto na vida do cidadão que continua pela ‘hora da morte’ mais literalmente do que gostaríamos de ter? Estará o chefe a inspirar-se em Fidel Castro, o líder cubano dono do famoso mais longo discurso que a Assembleia das Nações Unidas já teve de enfrentar? De quatro horas e 29 minutos? Se for essa a ideia... faltam-lhe o carisma, o magnetismo, as oscilações de ênfase que evitam o discurso monocórdico e que causa aquelas sonecas na casa das leis. Falta aquele entusiasmo que contagia, a mensagem que arregimenta que motiva, a esta de que ouvimos excertos a que voltamos várias vezes para ver que continuava... Parecia faltar alma mais uma vez talvez perdida nas listagens quilométricas ...    

O PR aplaudiu a projecção internacional de Angola, os feitos na diplomacia - que nos leva a questionar mais uma vez quais os efeitos junto da qualidade de vida dos angolanos em termos de resultados práticos para além das suas várias salas de conferências, que parece obsessão que vem aumentando ao longo dos anos...

O PR disse que Angola está em franco progresso e aplaudiu “a coragem de colocar de parte os males que enfermavam a nossa economia e as nossas instituições.” Tantas perguntas... Acreditará no que diz?

Mas uma certeza... Um dos males que mais nos enferma nestes 50 anos de governo MPLA é a falta de capacidade de priorizar em termos de políticas públicas que leva a que se invista mais em acções de promoção da imagem do que em prioridades como o combate à pobreza. No primeiro trimestre deste ano, o investimento na imagem consumiu mais de 28 mil milhões de kwanzas em quanto o combate à pobreza, se ficou pelos cerca de 9 mil milhões… Esse mal — certamente entre o top dos piores da lista dos males que nos enferma — certamente ninguém teve a “coragem” de pôr de parte… 

O PR atribuiu aos “factores externos internacionais” as falhas na a execução do Plano Nacional de Desenvolvimento que é um documento bonito com o que gostaríamos de ver para o país, dizendo que a execução foi impactada por factores adversos como guerras que baralharam as cadeias logísticas e os preços no mercado internacional e pela covid... Mais uma vez as prioridades... Mas disse mais, disse que nesse ambiente “ Angola teve de continuar a fazer reformas protegendo as famílias, preservando a estabilidade macroeconómica, continuando a construir o país, mantendo viva a esperança.”

Certamente algumas famílias foram protegidas...

Vem à cabeça a família dos Carrinhos ou de outros possíveis protegidos.

No entanto as famílias mais vulneráveis e que por causa dessa vulnerabilidade deveriam ser alvo primário dessa protecção... essas continuam à espera da tal protecção a que o chefe fazia referência - uma protecção social institucional que fosse de lei e que fosse cega à cor ou à falta de cartão do partido... Uma protecção social que fizesse com que os 18 milhões que habitam na zona de sobrevivência da pobreza multidimensional, tivessem alguma espécie de rede...

Famílias como as do sul de Angola em que mães rotineiramente andam quilómetros a pé com filhos pela mão e às costas fugidas da seca e dos interesses económicos que por aquela zona rica em mármore, granitos cobre e gás e outros minerais que vão empurrando as comunidades para fora de zonas de pastoreio e pondo em causa a sua sobrevivência...

Quatro horas de discurso e ficou tanto dizer...

Já que mostra tão satisfeito os resultados dos seus dois mandatos porque não esclarecer as dúvidas em torno de quem vai indicar para concorrer ao seu lugar? Não se ouviram esclarecimentos sobre o uso comprovado de spyware contra o ex presidente do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, Teixeira Cândido. Inequívoco assunto de Estado já que ficou provado que o Estado ou as pessoas nele, quebram a lei para invadir a privacidade de quem entendem... Não ouvimos sobre os passos para tornar as forças da ordem de facto republicanas e respeitadoras da Constituição... Na semana do discurso, foram novamente detidos jornalistas em missão de informar: três, soltos no final da semana por um tribunal e, por falta de provas, depois de 48h encarcerados, o que evidencia essa obstinação de prender na ausência de motivo que certamente é familiar a alguns profissionais desta casa, que o diga a Suelly de Melo... uma necessidade que continua a exibir a força para calar quem mostra ao público as realidades concorrem com a realidade feliz do discurso do chefe de Estado e do estado de coisas. É por tudo isto precisa muita esperança querido leitor e é sempre com ela que marcamos aqui encontro, até à próxima, na sua Rádio Essencial.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico