O Herói deles…

23 Sep. 2026 Suely de Melo Opinião

O calendário marca meados de Setembro e Angola vive um feriado prolongado. Conforme bem gostamos. E como gostamos. Não fosse o facto de a maior parte estar já com os bolsos furados e seria ouro sobre azul. Mas não é sobre isso que vos quero falar.

O Herói deles…

O calendário marca meados de Setembro e Angola vive um feriado prolongado. Conforme bem gostamos. E como gostamos. Não fosse o facto de a maior parte estar já com os bolsos furados e seria ouro sobre azul. Mas não é sobre isso que vos quero falar. A cada 17 de Setembro, o país é convocado ao ritual de veneração. Celebra-se o nascimento de António Agostinho Neto, o Fundador da Nação. Flores de estufa ornamentam o mármore frio do Memorial. Discursos alinhavados saúdam a vida e obra do Poeta Maior. Neto é elevado pelo cânone do partido-estado à condição de único e verdadeiro Herói Nacional. Porém, contudo, entretanto, todavia, fora do perímetro de segurança, a memória colectiva começa a recusar o monopólio do altar. Não só pelo facto de o país ter tido outros heróis, que nos fazem questionar se será justo condensar a travessia de todo um povo na figura de uma única pessoa. Mas fundamentalmente pelo fantasma que recusa calar-se. Como sustentar a exclusividade do heroísmo quando a História lembra o banho de sangue do 27 de Maio de 1977?  As mãos que assinaram poemas de libertação carregam a nódoa indelével da purga e do silenciamento de milhares, tornando todo este culto numa encenação que convence cada vez menos gente. Portanto, insisto na pergunta. Porquê apenas Neto? Até quando devemos fingir que desconhecemos a História? Podemos todos concordar que ter sangue nas mãos não é propriamente uma condição para a exclusão de outros heróis, certo? Se quem decidiu dispensar julgamentos justos e independentes e com isso ditou a sentença de morte de milhares de camaradas seus merece ser venerado e ovacionado, qual, exactamente, foi o critério escolhido para Neto figurar na galeria de único, verdadeiro e eterno salvador? São apenas vozes da minha cabeça….

E no país da fome relativa os ecrãs dos telemóveis espalharam, esta semana, o verdadeiro retrato do país. As imagens viralizaram sem piedade. Mamãs da OMA e guardiãs do discurso oficial, de uniformes ostentados com orgulho, em feroz disputa corporal, empurrões e gritaria para fazer ‘take away’ de um pedaço de carne crua. A tragicomédia disse mais sobre o estado da Nação do que qualquer relatório de governação. A fome e a escassez não respeitam a disciplina do partido. E a tensão do prato vazio alastra-se para as instituições. A paz social prometida nos comícios parece estar prestes a ruir em definitivo. Professores e oficiais de justiça ameaçam cruzar os braços na mesma semana, exaustos de promessas e tabelas salariais que não acompanham o custo de vida. Nas escolas, os quadros ficarão em branco deixando milhares de crianças à deriva num sistema de ensino há muito moribundo, a partir de segunda-feira. A partir de quinta-feira, nos tribunais, os processos acumularão poeira, congelando o já lento curso da justiça. Mas não é só, Outubro já se desenha cinzento com a greve anunciada dos enfermeiros de Luanda. Será mesmo este cenário em que teremos de viver, entre a santificação de um líder de mãos manchadas e o espetáculo triste de mães de família a digladiarem-se por comida, enquanto a classe trabalhadora exige o mínimo para não ter de lutar também por nacos de carne nas praças?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 18 de Setembro de 2026