Alertas da Associação da Indústria têxtil

Escassez de algodão ameaça indústria têxtil e desmente metas do Governo

A escassez de algodão no mercado nacional continua a condicionar severamente o rendimento da indústria têxtil, gerando um forte contraste entre os constrangimentos do sector empresarial e as metas anunciadas pelo Executivo. O alerta é de Luís Contreiras, presidente da Associação da Indústria Têxtil e de Confecções de Angola (AITECA), que manifesta “preocupação” quanto à baixa produtividade das fábricas devido à falta da principal matéria-prima.

Escassez de algodão ameaça indústria têxtil e desmente metas do Governo

A posição da AITECA colide com as garantias avançadas em Novembro de 2023 pelo ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano. Na altura, após reunir-se com a associação, o governante reconheceu a dependência externa do país relativamente ao algodão, mas comprometeu-se a alcançar a autossuficiência produtiva até 2027. Para alavancar o sector, o ministro anunciou ainda o acesso a garantias soberanas do Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2024, avaliadas em 330 mil milhões de kwanzas. 
Contudo, a aplicação dos investimentos públicos anteriores não se traduziu, até ao momento, num aumento substancial da oferta nacional. Em declarações ao Valor Económico, Luís Contreiras revelou que a produção interna de algodão não consegue responder sequer a metade das necessidades da indústria. Perante este cenário, o responsável defende a realização de auscultações periódicas aos empresários do sector, com vista a ajustar estratégias e traçar caminhos viáveis para a autossuficiência. 
Além da escassez do produto local, o líder associativo aponta um conjunto de obstáculos que sufoca as empresas do ramo: o acesso limitado ao financiamento, o défice na obtenção de divisas e a existência de barreiras legislativas que dificultam a importação de matérias-primas essenciais. De acordo com o responsável, a maioria dos insumos continua a ser importada, persistindo ainda assim uma escassez generalizada. 
A crise de abastecimento está a ter um impacto directo na capacidade operacional do parque industrial. Embora o país conte com três grandes unidades têxteis em funcionamento, o presidente da AITECA lamenta que nenhuma delas esteja a laborar na totalidade da sua capacidade instalada por falta de matéria-prima. “A SATEC, no Cuanza-Norte, recebeu um investimento milionário, mas nunca arrancou. Depois temos a TESTANG, em Luanda, que trabalha abaixo dos 10%, e a África Têxtil, em Benguela, com produção muito reduzida», descreve. 
Em várias circunstâncias, refere, o Governo toma decisões, cria leis e o Presidente da República visita determinadas fábricas sem ter em conta os representantes do sector, sublinhando que essas acções criam constrangimentos e colocam os agentes do sector em contramão. 
Para reverter a situação, o presidente da AITECA defende um maior alinhamento, diálogo e encontros de auscultação como forma de atingir o desenvolvimento de todos os sectores industriais do país.