situação volta a evidenciar as dificuldades enfrentadas pelos produtores

Falta de unidades de conservação ameaça escoamento do tomate, alertam agrónomos

Para o presidente da Associação dos Agrónomos, Yuri Chipoio, a falta de unidades de refrigeração nas zonas de produção, aliada à escassez de pequenas indústrias de transformação e às deficientes vias de acesso, está na origem de um problema cíclico que ameaça a sustentabilidade dos negócios agrícolas.

Falta de unidades de conservação ameaça escoamento do tomate, alertam agrónomos
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A situação volta a evidenciar as dificuldades enfrentadas pelos produtores durante os períodos de maior colheita, quando a oferta aumenta e a capacidade de absorção do mercado se revela insuficiente, e entre entre as regiões afectadas constatadas pelo Jornal Valor Económico,  estão as províncias do Cunene, Bengo e Zaire, onde o excesso de produção, a falta de estruturas de transformação e os constrangimentos logísticos estão a provocar perdas significativas.

No Cunene, mais de 400 toneladas de tomate estão a deteriorar-se devido à falta de escoamento e de mercado para a comercialização do produto. O cenário resulta do elevado volume de produção registado na actual campanha agrícola, associado à inexistência de uma indústria local de transformação. No Bengo, concretamente no mercado do Kawango, em Caxito, o excesso de tomate está a provocar uma queda acentuada dos preços. Uma caixa que anteriormente era comercializada por cerca de 15 mil kwanzas chega agora a custar apenas 500 kwanzas. 

Já no Zaire, cerca de 100 toneladas de tomate apodrecem anualmente na Fazenda Maravilha, no município do Luvo, devido à falta de meios de transporte e ao mau estado da estrada de acesso à exploração agrícola. Com uma área de 100 hectares e uma produção anual estimada em 1.500 toneladas, a fazenda enfrenta dificuldades para escoar a colheita e abastecer os principais centros de consumo. 

Falta de conservação e transformação agrava perdas

Para Yuri Chipoio, as dificuldades de escoamento do tomate constituem um problema recorrente, que se manifesta sempre que a produção atinge o pico da colheita.

“Esse tema da dificuldade de escoamento da produção de tomate é um problema que nós chamamos de cíclico, ou seja, sempre que estamos numa fase de produção ou num pico de colheita de tomate, temos sempre problemas de escoamento”, afirmou.

Segundo o responsável, a falta de unidades de conservação refrigerada nas zonas produtoras impede os agricultores de armazenar o produto durante períodos mais longos, dificultando a gestão dos stocks e a comercialização faseada da produção. “Sem uma unidade de conservação que permita aos produtores conservar o tomate no frio durante um período de, pelo menos, 30, 60 ou 90 dias, não se consegue fazer uma gestão de stocks no momento da colheita”, explicou.

O presidente da Associação dos Agrónomos apontou, também,  a insuficiência de pequenas unidades industriais de transformação como, também,  um dos factores que contribuem para o desperdício. Na sua análise, a transformação dos excedentes em ketchup, conservas, polpa de tomate, tomate pelado e outros derivados permitiria aproveitar parte da produção que não encontra compradores no mercado de produtos frescos, e alegou que este tipo de dificuldade  compromete a sustentabilidade dos negócios. 

Entretanto, Além das unidades de conservação e transformação, Yuri Chipoio considera que as dificuldades de transporte e a insuficiência de mercados dotados de condições adequadas de armazenamento agravam as perdas pós-colheita, fazendo referência as regiões mais frescas, como Huambo, Huíla, Bié, Malanje e Uíge, onde, segundo o agrónomo, faltam centros logísticos equipados com câmaras frigoríficas para receber e conservar regularmente os produtos hortícolas.

Em Luanda, apontou os mercados do Trinta, do Capitão e do Kikolo como importantes pontos de abastecimento que enfrentam limitações nas condições de armazenamento. Para o responsável, a capital, apesar de constituir o maior centro de consumo do país, continua a carecer de infra-estruturas logísticas capazes de absorver adequadamente a produção proveniente do interior.

“Este é o nosso défice, o nosso calcanhar de Aquiles actualmente: a falta de infra-estruturas logísticas capazes de receber, conservar e aumentar a vida de prateleira dos produtos hortofrutícolas”, sublinhou.

Contudo, como resposta ao problema, o líder da associação apontou a identificação e confirmação das principais zonas de produção agrícola, com vista à instalação de unidades de conservação de tomate e de outros produtos hortofrutícolas, incluindo frutas, repolho e outras hortícolas.

Entre as regiões que considerou prioritárias estão  Namibe, Benguela, a cintura verde de Luanda e as zonas de produção do interior, desde o Cuanza Sul até ao Planalto Central. Caso não sejam adoptadas medidas sustentáveis, alertou, o desânimo poderá levar os agricultores a abandonar a produção de tomate, criando condições para um futuro défice de oferta no mercado nacional.

O agrónomo defendeu ainda a reavaliação dos projectos agrícolas implementados entre 2006 e 2012, bem como dos clusters regionais, para identificar os resultados alcançados, as dificuldades registadas e as experiências que possam contribuir para a definição de novas estratégias.