Inflação, fraca literacia e pressão social travam a poupança das famílias em Angola
A inflação, fata de literacia financeira e a forte pressão social estão na origem dos baixos níveis de poupança em Angola. A conclusão de economistas, numa altura em que o Banco Nacional de Angola (BNA) promove um ciclo de acções de educação e inclusão financeira no âmbito do mês da poupança, sob o lema “poupança é cuidar do futuro”.
De acordo com os especialistas ouvidos pelo Valor Económico, a perda constante de valor do kwanza, visível no aumento continuado dos preços dos bens alimentares e serviços essenciais, anula qualquer esforço de valorização salarial. O cenário desestimula a constituição de reservas em moeda local sem mecanismos de protecção, uma vez que o dinheiro imobilizado perde poder de compra de forma acelerada.
A par dos factores económicos, a estrutura sociocultural representa outro obstáculo significativo. Numa sociedade em que a rede de apoio familiar alargada desempenha um papel central, o rendimento individual acaba frequentemente por custear vários agregados, suportando encargos com pais, irmãos e sobrinhos. Esta dinâmica impõe uma elevada pressão financeira sobre um único salário, reduzindo a margem necessária para constituir poupa
Sérgio Calundungo afirma que as famílias angolanas aplicam várias estratégias para conseguir poupar. O economista sublinha que, provavelmente, muitas famílias optam por retirar, quando possível, uma percentagem fixa para a reserva, vivendo com o restante. Outras aplicam a lógica da ‘kixikila’ ou de pequenas economias domésticas à escala individual.
O também coordenador do Observatório Político e Social de Angola (OPSA) alerta que, sem uma alteração da mentalidade de consumo imediato para uma mentalidade de acumulação e investimento, o consumo de oportunidade, isto é, os gastos em eventos supérfluos quando há liquidez, consumirá os eventuais excedentes.
Para finalizar, Sérgio Calundungo aponta como desafios para os angolanos a acomodação e a passividade, sustentando que a falta de acesso a instrumentos financeiros simples de protecção faz com que a população não veja vantagem em manter dinheiro parado no banco nem, por isso, reivindique tais serviços.
Por sua vez, o economista Heitor de Carvalho considera que “o problema mais grave” recai sobre os angolanos que não têm emprego formal, cerca de 80% da população trabalhadora, por não disporem das mínimas condições para poupar, uma vez que lutam apenas pela sobrevivência.
Segundo o especialista, poupar exige disciplina, sobretudo quando se dispõe de um orçamento apertado. Para tal, aconselha as pessoas a separar o valor a poupar assim que recebem o salário, fazendo depois as contas apenas com o montante remanescente.







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