PAULO FERDILHA, CONSULTOR E GESTOR AGRÍCOLA

“As cadeias de valor na agricultura angolana ainda não estão verdadeiramente estruturadas e isso torna o sector insustentável”

Defende que o potencial agrícola nacional continua a “esbarrar” numa estrutura dependente do Estado, com produtores que enfrentam dificuldades para financiar, escoar e transformar a produção em negócio. Entende que falta de cadeias de valor estruturadas e de agro-indústrias capazes de absorver a produção agrava o problema. Para Paulo Fardilha, da Global Wide Angola, a transformação do sector exige mais investimento privado, conhecimento técnico e projectos capazes de ligar produção e mercado.

“As cadeias de valor na agricultura angolana ainda não estão verdadeiramente estruturadas e isso torna o sector insustentável”
Mário Mujetes

A Global Wide Angola apresenta-se como uma empresa de consultoria e de gestão agrícola. Em que se traduz concretamente o vosso trabalho? Quais são as áreas específicas da vossa intervenção?

Primeiro, a falta de conhecimento. Os apoios do Estado, muitas vezes, não chegam a tempo. Depois, há a falta de infra-estruturas. Os agricultores, muitas vezes, produzem, mas depois não têm a quem vender. A agricultura, como a maior parte da economia em Angola, ainda está muito dependente do apoio do Estado, está muito centralizada. É preciso haver uma diversificação económica, mas apoiado em investidores privados, quer sejam angolanos, quer sejam estrangeiros, para que comecem a aparecer pequenas e médias empresas e que se crie um verdadeiro mercado a nível de empresas para que desenvolvam a agricultura. É preciso captar investimentos em médias e pequenas empresas agrícolas. Também algumas empresas âncoras que sirvam de exemplos para as outras e para que comece a haver uma cadeia de valor verdadeira, apanhando todo o processo, desde a produção até à exportação, se for o caso disso.  A prioridade é o mercado interno, mas esperamos que um dia Angola seja um país exportador de produtos agrícolas, tem todo o potencial para isso.

 Quando fala da necessidade de diversificação e de empresas com capacidade para criar e desenvolver negócio, está a dizer que o problema não está apenas na falta de produção, mas também na forma como os diferentes agentes económicos estão ligados entre si?

As cadeias de valor na agricultura angolana ainda não estão verdadeiramente estruturadas e isso torna o sector insustentável. Há ainda em Angola uma grande competição entre os preços dos produtos produzidos internamente e os preços dos produtos importados. Isso também cria algumas dificuldades aos produtores agrícolas. O Estado tem que regular isso para que a agricultura se possa desenvolver internamente. Os grandes negócios de abastecimento continuam muito dependentes do sector público e do apoio do Estado. É preciso que essa realidade mude e que haja uma verdadeira diversificação, permitindo às empresas encontrar mercados que funcionem de forma regular, crescer e criar novos negócios. Sem mercados funcionais e sem uma ligação efectiva entre os diferentes agentes da cadeia, é difícil criar escala e desenvolver empresas sustentáveis.



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