Inquérito

Precariedade laboral retira sustentabilidade económica ao jornalismo africano

Inquérito da Federação dos Jornalistas Africanos revela que 61% dos profissionais não conseguem cobrir as necessidades básicas com os rendimentos da actividade, enquanto 58% enfrentam atrasos salariais e 71% não dispõem de protecção social.

Precariedade laboral retira sustentabilidade económica ao jornalismo africano
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A precariedade dos rendimentos, os atrasos salariais e a ausência de protecção social estão entre os principais factores que fragilizam a sustentabilidade económica do jornalismo em África, segundo um relatório da Federação dos Jornalistas Africanos (FAJ), que aponta para uma crise nas condições de trabalho e no exercício da profissão em 45 países do continente.

Intitulado ‘Jornalismo sob Cerco: Condições de Trabalho Deploráveis e o Declínio da Liberdade de Imprensa em África’, o estudo baseia-se nas respostas de 1.586 jornalistas e reúne dados sobre rendimentos, direitos laborais, segurança profissional e liberdade de imprensa. O levantamento foi realizado pela FAJ, com o apoio do Programa Multidoadores da UNESCO para a Liberdade de Expressão e a Segurança dos Jornalistas.

De acordo com o estudo produzido com apoio do Programa Multidoadores da UNESCO para a Liberdade de Expressão e a Segurança dos Jornalistas, 61% dos inquiridos afirmaram que os rendimentos provenientes da actividade jornalística não são suficientes para cobrir as necessidades básicas, enquanto apenas 4% consideraram que os salários permitem suportar adequadamente as despesas essenciais. Entretanto, a situação é agravada pelos atrasos salariais, reportados por 58% dos participantes.

No documento, a instabilidade laboral também se reflecte na ausência de vínculos formais e de mecanismos de protecção, onde cerca de 62% dos jornalistas trabalham sem contratos escritos e 71% não beneficiam de protecção social, ao passo que os profissionais independentes representam 29% dos inquiridos, enquanto colaboradores e correspondentes correspondem a outros 18%.

O perfil dos participantes evidencia ainda uma forte presença de jovens na actividade, com 53% dos inquiridos a situarem-se na faixa etária dos 18 aos 34 anos, segmento que poderá ser particularmente afectado pela falta de estabilidade financeira e de perspectivas de continuidade profissional.

Para a FAJ, a fragilidade económica dos jornalistas está directamente associada à capacidade de exercício da profissão. O relatório considera que os profissionais são chamados a informar a sociedade enquanto enfrentam dificuldades para garantir a própria subsistência, uma realidade que compromete a independência editorial e restringe o acesso público à informação.

O impacto das condições de trabalho estende-se ainda à saúde e à permanência dos profissionais no sector. No estudo, a insegurança financeira foi apontada por 38% dos participantes como a principal fonte de stress, seguida do medo de ataques, com 24%. Cerca de 72% afirmaram que as entidades empregadoras não disponibilizam apoio psicológico ou serviços de aconselhamento, enquanto 44% relataram episódios frequentes de esgotamento profissional.

A possibilidade de abandono da profissão também ganha expressão: 47% dos inquiridos admitiram já ter considerado deixar o jornalismo. O relatório alerta que a saída de profissionais, sobretudo dos mais jovens, poderá comprometer a capacidade de investigação dos órgãos de comunicação social, a responsabilização pública e o acesso a informação fiável.

Perante este cenário, a FAJ defende a adopção de medidas destinadas a melhorar a sustentabilidade laboral e económica do sector, com destaque para a garantia de salários justos, contratos escritos, protecção social e ambientes de trabalho seguros. A organização recomenda igualmente investigações céleres sobre ataques contra jornalistas, revisão de leis utilizadas para intimidar ou criminalizar profissionais, respeito pela independência editorial, reforço da negociação colectiva e implementação de mecanismos específicos de protecção das mulheres jornalistas.

Além da dimensão económica, o estudo identifica a insegurança física e as pressões institucionais como factores que agravam a crise do sector. Nos últimos três anos, indica, 65% dos participantes sofreram ameaças ou intimidações relacionadas com o trabalho, enquanto apenas 17% afirmaram sentir-se sempre seguros durante a cobertura jornalística. Outros 55% raramente ou nunca se sentiram em segurança.

Segundo dados da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), citados no relatório, pelo menos 18 jornalistas e trabalhadores dos órgãos de comunicação social foram mortos em África em 2025, em consequência do exercício da profissão.

Para o  presidente da FAJ, Omar Faruk Osman, as dificuldades enfrentadas pelos profissionais não se limitam à violência física, abrangendo também a intimidação judicial, a censura e os obstáculos ao acesso à informação. Para o responsável, quando os jornalistas são ameaçados ou afastados do exercício profissional por noticiarem matérias de interesse público, toda a sociedade fica prejudicada.

As pressões sobre a actividade, segundo consta,  reflectem-se igualmente nas decisões editoriais. Oitenta e quatro por cento dos inquiridos admitiram praticar frequentemente ou ocasionalmente a autocensura, enquanto 69% afirmaram ter evitado determinadas matérias devido a ameaças.