E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de um primeiro de Maio, que assinalou o Dia Internacional do Trabalhador, e que homenageia a luta de trabalhadores fabris em Chicago, no ano de 1886, que fizeram greve e foram para as ruas revindicando melhores condições de trabalho e de vida, especificamente menos horas de trabalho, que naquela época podiam chegar a 16 h por dia.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de um primeiro de Maio, que assinalou o Dia Internacional do Trabalhador, e que homenageia a luta de trabalhadores fabris em Chicago, no ano de 1886, que fizeram greve e foram para as ruas revindicando melhores condições de trabalho e de vida, especificamente menos horas de trabalho, que naquela época podiam chegar a 16 h por dia. A polícia recebeu-os com tiros, atingindo um número incerto; muitos foram presos e condenados à forca, mas, no fim, os trabalhadores ganharam e instituiu-se o convencional que temos até aos dias de hoje de cerca de oito horas de trabalho por dia e que muitos países já estudam reduzir para quatro dias por semana, alguns três, de modo a equilibrar as necessidades demográficas, a promoção do aumento do agregado familiar, com a produtividade das populações.
A governação é esse exercício de equilíbrios ajustados ao contexto, de pensar as políticas macroeconómicas e sociais que vão afectar a vida das populações décadas no curto, médio e longo prazo. Um exercício que parece teimar em nos fugir constantemente.
Tenho na minha mão agora que escrevo, uma projecção da população elaborada pelo Instituto Nacional de Estatística em 2016, quando a população era de 27 milhões e meio, que apontava para que a população angolana em 2026 fosse de um pouco mais de 37,2 milhões de habitantes, quando o Censo divulgado no ano passado apresenta uma estimativa de 36, 6 milhões, um pouco menos do que se previa em 2016.
Sendo que temos o mesmo governo há meio século, muitas vezes sob o racional da estabilidade governativa, seria de esperar que o executivo, avisado de que dez anos mais tarde teria mais 10 milhões de angolanos, preparasse as suas políticas de modo a acautelar as necessidades. No entanto, no que diz respeito ao trabalho que se assinalou e que é central para a vida das populações, enquanto em 2016 a taxa estimada de desemprego se situava nos 6,6%, a dos dias que correm ronda os 28%, com algumas alterações de metodologia que permitem incluir emprego altamente informal e frágil, como a zunga, de modo a que os números se aproximem mais dos 20%. Isto, para não mencionar outros indicadores como o da pobreza, em que Angola consta do grupo de países onde a criação de pobreza é maior do que o ritmo de saída da condição de pobre, com um aumento da pobreza extrema de mais de 80% de 2016 até ao ano passado, segundo o World Poverty Clock.
O emprego informal, esse constitui mais de 80% do emprego em Angola, com toda a fragilidade a falta de impostos (agora temos a Administração Geral Tributária a ver como vai taxar a zunga que volta e meia os ficais perseguem pelas ruas) e sobretudo as repercussões negativas ao nível dos direitos dos trabalhadores que o Primeiro de Maio visa comemorar. E agora pergunto eu, o que andou o governo o tal que é o do mesmo partido da estabilidade, a fazer de lá para cá, que não criou condições para que os 37 milhões de angolanos que sabia que ia ter dez anos mais tarde tivessem melhores condições de vida? Essa é a missão do governo: não é exonerar e nomear e viajar ad eternum. A razão de ser de qualquer governo é a melhoria das condições de vida dos governados. E este só fez piorar…
Apesar de ser este um espaço mais de perguntas do que de respostas, os acontecimentos que marcaram a actualidade não só da semana que passou mas a actualidade recente, poderão porventura ajudar a responder à questão do que andou o governo a fazer na ultima década... depois de na semana passada o tema ter sido o regresso do ‘zonera/nomeia’ com requintes de humilhação no caso da exoneração do chefe do Gabinete de Acção Psicológica, esta semana temos o ‘zonera/nomeia’ na casa militar com contornos de novela tailandesa... Depois de surgirem acusações de contaminação e de tentativa de assassinato por parte de uma jovem aparentemente transexual, o general que estava no topo da hierarquia militar do país foi mandado para casa sem explicações, horas depois de aparecer ao lado do chefe num dos seus momentos corta-fitas.
A deselegância é de facto marca registada deste chefe de Estado e do estado de coisas... Qualquer outro com o mínimo de senso evitaria proceder a exonerações no momento em que as acusações estavam ao rubro, quanto mais não fosse para não lhes emprestar uma credibilidade que mancha toda a aura de respeitabilidade colectiva de governados para governantes. Essa cultura é de exonerar e nomear sempre “por conveniência de serviço” — uma expressão em que cabem todas as teorias, incluindo aquelas como as que correm e que acabam sendo danosas, inclusive para a imagem do país, não só cimenta boatos porque o vácuo de informação tem de ser preenchido de alguma forma, como cria trauma e drama desnecessários ao que devia ser sempre uma função passageira - a de servidor público.
Desde já parece altamente improvável que na base da exoneração da semana esteja algum escândalo sexual, porque esses abundam no seio dos mais próximos à liderança, assim como abundam os rumores de tendências homossexuais entre essa esfera, e isso não tem sido motivação para exoneração.
De resto, a orientação sexual das pessoas não tem qualquer peso na sua competência; como sociedade, teríamos mais a ganhar se dessemos importância ao caráter e à capacidade de trabalho dos líderes mais do que a tricas sobre a sua orientação sexual. No entanto, a forma avassaladora como a música da dança das cadeiras toma conta da actualidade de cada vez que toca, pode informar talvez sobre o porquê da falta de preparação, de governação efectiva com resultados que faz com que as condições de vida dos angolanos tenham piorado nos últimos dez anos em vez de fazerem a marcha inversa.
O partido-Estado ocupa demasiado espaço, a todos os níveis, seja de consumo de recursos públicos, seja de interferência na esfera privada, na vida diária do cidadão, ocupa demasiado espaço inclusive espaço mental das pessoas. O espaço que ocupa o partido Estado e as suas lutas intestinas para manutenção do poder, e as suas facções e vinganças internas, tudo isso ocupa tanto espaço que parece também paralisar a acção governativa em torno da necessidade de evitar que a dança das cadeiras seja, numa ou noutra vez em que é ouvida, fatal. Os governantes passam provavelmente mais tempo a tentar sobreviver a essas lutas intestinas para se equilibrarem nas cadeiras do que propriamente a governar. Não admira que, em vez de andarmos para a frente, em termos de indicadores essenciais, como o trabalho, mas outros, saneamento, saúde, educação, não admira que, em vez de andarmos para a frente, andemos para trás, porque o foco dos governantes está - sem excepção para o líder - na manutenção do cargo e não na governação eficiente enquanto o cargo - que devia ser passageiro - existe. Mas é com esperança sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.




Angola continua a construir aeroportos…e a destruir a mobilidade