E agora pergunto eu...

03 Jun. 2026 Geralda Embaló Opinião
E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que a actualidade internacional foi marcada, entre vários acontecimentos, pela explosão de um foguetão espacial da Blue Origin de Jeff Bezos, que era parte de um programa de exploração espacial que inclui a construção de uma estação espacial na Lua, onde os astronautas poderão estacionar na próxima década e trabalhar, fazer pesquisa, viver. Assim como um precursor de uma colonização humana do espaço do qual sabemos ainda relativamente pouco mas que como espécie, queremos invadir... Parece que não fizemos um trabalho minimamente decente com a gestão do planeta que temos nas mãos, a nível ambiental, a nível humano a nível social, e já atirámos a toalha; queremos agora ir estragar ‘outros espaços’ no espaço…

Uma das provas dessa má gestão planetária, para além dos estragos ambientais que são muitos, é sem dúvida a desigualdade, o fosso, o hiato gigantesco entre o punhado de mais ricos que, entre tudo o resto, lideram por exemplo as iniciativas de expansão da humanidade para a esfera extraplanetária, e o restante que habita a base da pirâmide da riqueza global no planeta que é de todos e que o punhado supramencionado teria recursos para retirar dessa posição de pobreza. Um por cento das pessoas no topo da cadeia da riqueza, só um por cento desse punhado de mais ricos do mundo, controlam perto de 50 por cento da riqueza mundial, dez por cento controlam mais de 75 por cento da riqueza mundial. Quase quatro biliões de pessoas estão na base da pirâmide como as mais pobres, enquanto 12 dos bilionários mais ricos do mundo, onde se incluem Bezos e o seu concorrente na corrida espacial Elon Musk, detêm entre si metade da riqueza global. Fizemos definitivamente um mau trabalho como humanidade, convivemos bem com a desgraça do próximo, e queremos ir ocupar outros planetas outros satélites em vez de reparar o tanto que temos para reparar aqui na Terra.

A propósito dessa reparação da desigualdade, vi um excerto de uma palestra recente do economista americano Jeffrey Sachs que para além de todos os livros que já escreveu, de todos os prémios de economia que já recebeu, lidera uma organização dedicada a combater a pobreza extrema. Sachs sugeria nesse espaço que África deixaria de estar consistentemente na base dessa cadeia da riqueza quando os 55 países que foram divididos pelos ocidentais durante o processo de colonização se unissem e pensassem a sua economia em bloco. Sacks acredita que a União Africana - que o nosso chefe esteve a liderar até recentemente - é a chave para esse desenvolvimento. É inteiramente possível que Jeffrey Sacks não saiba até que ponto as lideranças africanas comprometem quaisquer objectivos de desenvolvimento. Que temos lideranças que mal se têm de pé e que se urinam em público mas sair do  poder não saem, que temos lideranças que vendem a alma - e o país com ela - para não largar o trono, que como Nero preferem ‘Roma a arder’ e que como o rei francês Luís XIV prometem a si mesmos que "L’Etat cést moi"...

Mas o economista acredita piamente que a União Africana se devia comportar como um bloco económico e seguir as pisadas, a estratégia de colossos como a India e a China. A China que em 1980 tinha uma taxa de pobreza superior à que o continente africano tem hoje e que regista actualmente o maior produto interno bruto medido por paridade de poder de compra, que é uma medida mais relevante para reflectir a qualidade de vida das famílias do que o produto interno bruto (que não tem em conta factores de redistribuição de riqueza essenciais para fazer país, sociedades mais igualitárias). Quase um bilião de pessoas saíram da pobreza e da pobreza extrema na China. A Índia, na década passada, tirou 270 milhões de pessoas da pobreza extrema, querido leitor. Isto enquanto o país do líder até há pouco líder da União Africana, Angola, figurava entre os 12 países onde ainda se cria mais pobres do que se tiram pessoas da pobreza extrema segundo o World Poverty Clock.

A outra chave para o desenvolvimento da população africana, que Sacks lembra que tem proporção próxima à desses países que devem servir de modelo de desenvolvimento - a Índia e a China - e que, entre nós, também anda severamente comprometida, é a educação, que claramente não foi o foco de investimento do governo, que aí anda há décadas.

O novo líder do Movimento de Estudantes africanos, que foi preso recentemente porque foi perguntar na esquadra por estudantes que tinham sido presos numa manifestação – de resto vale lembrar que uma das camadas que mais carece de educação é mesmo a castrense, até para saber respeitar direitos humanos básicos como o direito à manifestação à liberdade de opinião e de imprensa por exemplo – Simão Formiga terá dito que lhe doeu ver que as casas de banho dos chefes na cadeia eram melhores do que as casas de banho em muitas escolas.

Cerca de um terço das crianças está fora do sistema escolar; cerca de cinco milhões, mais de um milhão, estão fora do sistema de ensino na capital, onde o governo investe biliões em centros de conferências e afins que não terão serventia se a população não tiver educação para efetivar o desenvolvimento que esses centros visam honrar e atrair. Um dos maiores entraves ao investimento externo, que o chefe usou para justificar as suas milhentas (milhentas de mil e de milhas) viagens é precisamente a falta de educação e de formação da mão de obra nacional, que só se desenvolve com uma aposta séria na educação. Uma aposta que não foi feita.

E essa aposta é mesmo necessária não apenas porque esse investimento foi um passo instrumental nos trajectos das duas economias exemplo, a China e a India, mas também porque o que constatamos é que em vez de estarmos a acompanhar o desenvolvimento tecnológico a nível mundial, ainda andamos com hábitos criminosos e retrógrados que nos atiram para o século passado, em que a justiça popular ainda anda a fazer vítimas nas ruas.

Na semana passada falava neste espaço de acusações de feitiçaria que em Moçambique já mataram dezenas de pessoas e que contribuem para o atraso do continente que acredita mais em magia do que em estudo, trabalho e desenvolvimento. Mas esta semana a actualidade nacional registou a morte por justiça popular - que traduz a falta de educação e formação mais básica - do jovem Elisandro Costa. Um jovem que segundo se escreve online terá sido acusado de ser ‘gatuno’, torturado e assassinado por uma multidão ululante, depois de sair de casa para tentar tratar documentação, para como milhares de jovens que a governação afugenta, sair, também ele do país. Não regressou e o seu corpo foi encontrado por familiares na morgue. A falta de educação e de formação são incompatíveis com o desenvolvimento.

Temos demasiadas mortes de jovens em vão de demasiadas formas, doenças, acidentes, violência, um desperdício surdo da mesma massa crítica que devia assegurar o desenvolvimento do país. E temos uma indiferença cruel da parte das autoridades para com essas mortes e essa perda da massa crítica que deveria gerir o país num futuro próximo. É com alguma tristeza pela dor das famílias que ficam, mas esperança sempre querido leitor, que marcamos aqui encontro até à próxima, na sua Rádio Essencial.

 

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico