E agora pergunto eu...

29 Jul. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, que, com as devidas desculpas, não foi para o ar na Rádio Essencial, na semana que passou, graças a problemas internéticos que não há Angosat um, dois, ou três, que atendam, mas que esteve no seu jornal Valor Económico como sempre.

E agora pergunto eu...
Mário Mujetes

Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, que, com as devidas desculpas, não foi para o ar na Rádio Essencial, na semana que passou, graças a problemas internéticos que não há Angosat um, dois, ou três, que atendam, mas que esteve no seu jornal Valor Económico como sempre. Numa semana em que ouvimos um discurso de abertura da conferência da Aliança da Paz, de um PR retornado de viagem e de aspecto e voz combalidos, que lembravam o tal maratonista que corre ansioso 'antes do tiro de largada e morre na praia' a que havia feito referência, a propósito da candidatura de Higino Carneiro. Viu-se novamente esta semana porque tinha tanta certeza de que o maratonista morreria na praia... A distância da meta vai aumentando à vontade do organizador da corrida: quando o maratonista pensa que está perto, a meta ganha pernas, move-se, corre também, foge para mais longe, desvia-se à espera do candidato indicado pelo organizador da corrida.

E agora pergunto eu, porque é que alguém decente e saudável quereria ser presidente do que cada vez mais se vai assemelhando a uma organização de malfeitores ou pelo menos dirigida em grande parte por malfeitores? E malfeitores não só porque são quem faz mal não só entre si, mas a tudo o que está à volta, mas porque governam mal - e a prova está no estado dos índices de desenvolvimento meio século depois que, por mais cosmética que sofram, continuam a denunciar uma pobreza e uma fome inaceitáveis. Mas os “eu sou do MPLA no matter what”, mesmo aqueles de reconhecido e indubitável valor – que há muitos -  como Hélder Preza ou Sérgio Raimundo, só para mencionar alguns, continuam agarrados ao partido que talvez só exista nas suas memórias de militância decanas. Porque o partido que vemos hoje, fintas, de truques e curvas, tão bem pintado pelo brilhante cartoonista Sérgio Piçarra com os seus protagonistas Jogo Sujo e Golpe Baixo não parece mais apetecível ou higiénico do que o comum dos currais de larga escala e sem a utilidade da produção para consumo... mas eles insistem.   

Na semana que passou, para além da conferência, e antes da recusa da candidatura de Carneiro ao partido, continuou a marcar a actualidade o concurso público do ministério do Interior para recrutar milhares de novos agentes a ser distribuídos pela PN, SIC, Protecção civil, e demais instituições públicas afectas ao ministério... e que tem sido motivo de variadas manchetes desde o anúncio da autorização pelo chefe, que a meses de começar a campanha eleitoral não surpreende nada, desde os temas relativos às candidaturas para as vagas, com o ministério a falar em 50 mil vagas, que lembra que as despesas do Estado com a função pública são de tal ordem consumidoras do Orçamento Geral do Estado que o que resta serve para pagar dívida e pouco mais, mas que em período eleitoral está visto que a prudência orçamental de que havia falado a ministra das Finanças é atirada janela fora. Mas o concurso do ministério do Interior ainda vem marcando a actualidade por outros temas, desde as falhas sucessivas do sistema, já que as candidaturas foram feitas online - outra novidade - as alegações de fraude que resistem a qualquer tecnologia e as quedas da plataforma por manifesto excesso de interesse de candidaturas submetidas. Será que tanta gente assim tem vontade de ser polícia, tem vocação para ser polícia?

Entre as razões citadas em países desenvolvidos, como a Dinamarca ou o Luxemburgo, para a procura por estas carreiras - que nunca se assemelha ao nível de procura que vemos entre nós - estão alguns factores importantes, nomeadamente: os polícias nesses países estão entre os profissionais mais bem remunerados. Entre nós, os polícias ganham, em média, entre pouco mais de 100 mil kwanzas e menos de 400 mil nos primeiros cinco anos, tendo em conta que o salário mínimo é de 100 mil, não se justifica o rebuliço à primeira vista.

Mas há outros factores: esses países líderes de desenvolvimento lideram também o ranking de confiança na polícia, o que traduz um estatuto e autoridade que em Angola são questionáveis. Um polícia, pelo menos à entrada, se não durante vários anos, fica aí no sol, anda a pé quilómetros; a corporação tem fama de viver de gasosa e, também por isso, a confiança na corporação é assim relativizada e a segurança pública não tem índices tão bons que se reflitam na maneira como os angolanos olham para a sua polícia.

Outro factor nos países dos outros que leva a candidaturas para a polícia é a possibilidade de carreira internacional… E, entre nós, os polícias não entram para a corporação a sonhar em ir ser polícia noutros países; presumo que seja mais uma situação como a fama que tem a polícia angolana: quem nos quer?

Dos factores que levam a candidaturas para a polícia nos países organizados, e que coincidem com o que vemos entre nós, apenas a segurança de entrar para os quadros do Estado e ter um salário fixo (que no nosso caso pode atrasar e atrasa muitas vezes porque o Estado endividado tem de pagar e fica sem liquidez para salários da função pública). De todo o modo, trata-se de uma ‘segurança’ que sabemos que o governo pode e usa de forma interesseira para captar votos à boca das eleições, mas que no fundo traduz uma busca por uma segurança social que seria devida a todos os angolanos e que é sonegada para ser usada como vil moeda de troca por votos e de vontades. Uma troca que perverte completamente a motivação para ingresso na polícia e pode explicar por que vemos tantos casos de suspensão de agentes, de crimes cometidos por agentes ou de abuso de autoridade por quebra de conduta, como vimos na semana que passou também. Entrada na corporação em busca de segurança, não por vocação ou vontade de ser polícia parece ser a situação mais comum, no entanto, a motivação para o que se faz é instrumental para a qualidade do trabalho e do resultado - o que pode ajudar a explicar porque é que os resultados da governação também são os que temos - mas é com esperança sempre querido leitor, que marcamos aqui encontro até à próxima, na sua Rádio, Essencial. 

 

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico