E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois uma semana de dia 11 de Setembro, 25 anos depois de um dos acontecimentos que marcaram não só a atualidade na altura, mas História e vieram a determinar e autorizar a alteração das vidas de milhões agora mais sujeitos a medidas de vigilância intrusivas e auto-justificadas! Isto na mesma semana em que a actualidade foi marcada por uma pessoa, a lembrar do efeito borboleta e da capacidade de qualquer um de influenciar o curso da vida de milhões, no caso a actualidade foi marcada pela saída voluntária de um técnico de uma das empresas mais avançadas a nível mundial no campo da inteligência artificial, a Antropic. Despediu-se Jacob Coxon, segundo o técnico, porque está preocupado com os riscos para o desenvolvimento da inteligência artificial para a humanidade, depois de vários incidentes recentes em que a vontade própria e a capacidade ilimitada de autoaprendizagem da inteligência artificial se demonstraram bem aquém das capacidades humanas de controlo. Jacob não quer fazer parte desse grupo de pessoas que poderão ser responsáveis pelo fim da humanidade.
No que os pesquisadores pensavam que era um ambiente controlado de rede fechada, a inteligência artificial saiu das redes internas para testes, entrou na internet aberta e hackeou outros sistemas em que estava interessada sem prompt humano, e evidentemente dando a volta a todo o tipo de controle dos mentores das máquinas e evidenciando um potencial ilimitado para entrada em sistemas que estão online e que podem ser instrumentais para a sobrevivência da humanidade… Vêm à mente estruturas de armamento, armazéns e armas nucleares, ou formas de morte em massa mais lentas, como através das estruturas financeiras que podem rapidamente secar economias estáveis. Estes episódios foram limitados ao interesse das máquinas noutros desenvolvimentos, mas podiam ser focados na ruína financeira de bancos, por exemplo, e no colapso de economias, que poderia ser materializado com alguns cliques e códigos binários, e a vida como a conhecemos poderia mudar drasticamente às mãos do mesmo Claude que se usa para batotar textos e trabalhos feitos com recurso à inteligência artificial… Este texto teve correcção de erros por inteligência artificial por exemplo, a obsessão humana com criar ferramentas para fazer o que deveria ser o seu trabalho está a pôr a sua continuidade em risco. É caso para dizer que a preguiça - literalmente - vai nos matar. E não faltam avisos para levar a sério como o desse técnico que disse à CNN que as incursões da inteligência artificial sinalizam a vontade própria e a capacidade de ignorar olimpicamente as instruções humanas - e que a humanidade em menos de uma década poderá estar extinta às mãos das máquinas que criou. O Exterminador Implacável, Matrix e afins já não são realidades tão distópicas e distantes quanto tudo isso...
Mas, a propósito de pessoas que marcam a história, a marcar a actualidade esteve, esta semana, a entrevista do ex-vice-presidente, o Sr. Petróleos Manuel Vicente, a um think tank que produz análises sobre a região Ásia-Pacífico, depois de anos de silêncio no exílio…
A entrevista foi sobre a cooperação Angola/China, sobre os financiamentos multibilionários que a China concedeu a Angola, estimados em cerca de 25 mil milhões de dólares, bem mais do que a qualquer outro país africano e sobre como o gigante asiático estava na verdade a defender os seus interesses não a fazer caridade, sobre como Angola não foi capaz de defender melhor os seus interesses - a posição negocial evidentemente explica o porquê mais do que explica porque é que os efeitos desses financiamentos não se reflectiram em melhorias sustentáveis das condições de vida das populações... A entrevista também focou nas soluções para o país, a lembrar de que o eterno gestor da Sonangol teria capacidade de levar o país a bom porto, com nada de muito inovador mas com soluções como a cooperação intra-africana, o investimento na capacidade interna de transformar recursos naturais que temos antes da exportação, investimento nas redes de transportes como objetivos, só um cheirinho que permite perceber o quanto JES teria feito melhor figura e porventura estaríamos todos melhor, caso em vez de escolher João Lourenço, tivesse escolhido a si, Manuel Vicente, para seu sucessor.
Mas as mensagens que se podem ler nas entrelinhas, combinadas com o timing, a escolha do momento para falar quando se tem a consciência de que tudo o que se disser vai ser dissecado, usado de formas várias e obter variadas reacções e questionamentos sobre os temas que deixou de fora, sobre a vida no exílio, as acusações de corrupção por responder... tudo se resume à pergunta mais óbvia: “e agora pergunto eu e quem leu os highlights da entrevista... porquê dar um ar de sua graça agora Sr. ex-vice presidente? Porquê agora?
E as respostas poderão estar nas palavras escolhidas cuidadosamente pelo Sr. Petróleos na entrevista, se retiradas do contexto da entrevista restrita ao tema de Angola China e aplicadas à sua própria trajetória: Vicente explica: “cada um tem o seu interesse”; “o problema foi a inveja”; “mas há espaço para todos”.
Sempre pragmático, o ex-vice disse que a China tinha os seus interesses e defendeu-os quando financiou a reconstrução de Angola no pós-guerra, disse que o Ocidente se sentiu invejoso porque tinha negado esses empréstimos, mas que eles aconteceram por mão de outrem, e que não há necessidade de escolher lados porque ‘quando os grandes lutam os pequenos podem aproveitar para fazer o seu’...
Que diferença faria para o país se este pragmatismo de Manuel Vicente tivesse servido de modelo às legiões que inspirou durante os seus quase trinta anos de ascensão meteórica, em vez da riqueza que acumulou...
Há algumas pessoas que tiveram um papel instrumental em moldar a sociedade que temos, através das suas experiências, que serviram de modelo e inspiraram milhares de angolanos. Uma dessas pessoas, senão a primeira foi evidentemente José Eduardo dos Santos, o clarividente, que com tantos anos de poder, criou uma legião ‘wannabes’ cujo sonho só é ser presidente para mandar em tudo e todos e que não olham a meios para atingir esse fim... porventura pode incluir-se o que aguentou todas as humilhações possíveis, enalteceu a cada oportunidade que teve, e fingiu ser subserviente e leal, para lá chegar, e chegou para mandar e pouco mais.
Há outras figuras com Isabel dos Santos que a partir de certa altura abdicou da anonimidade e passou a ‘engolir’ todos os contratos e projectos públicos de relevância até chegar à prtesidência empresa estatal que sustenta a economia, e fazendo com que os limites do aceitável, no quesito de filhos que façam negócios ilimitados com o Estado gerido pelos pais, fossem forçados. Independentemente de toda a competência empresarial que tem - até porque a maioria dos filhos de quem manda não produz nada que beneficie o colectivo só consome – a excessiva exposição dentro e fora de portas quebrou a confiança do público nas decisões do pai.
No entanto, Manuel Vicente criou a sua própria legião com séquito bem superior, durante os seus 13 anos anos de liderança da Sonangol encaminhados depois para a Presidência de onde chegou muito, muito perto. Manuel Vicente patenteou o modelo do absurdamente rico homem da Sonangol, e com esse modelo, deu azo a uma legião de meninos ricos, ambiciosos, tecnocratas de gravata com acesso a recursos inenarráveis, a iates, a aviões privados, vinhos transportados por avião... a poder e dinheiro capazes de comprar tanto que porventura até se torne aborrecido e que tem um custo imensurável para a economia. Em grande parte responsável pelo fosso fundo entre poucos muito ricos e muitos muito pobres que vemos todos os dias no país.
Pior. Estas legiões, para além de não perseguirem outros modelos (como cientistas, criadores de tecnologias e afins com utilidade a nível internacional, como Nobel da Literatura ou da Química), essas legiões, inspiradas por estas pessoas, não lhes copiaram as virtudes. Não lhes copiaram a capacidade negocial, ou empreendedora, não copiaram a descrição e voluntarismo pacificador de JES por exemplo, não copiaram a capacidade empreendedora e empregadora de Isabel dos Santos, não copiaram o investimento em quadros e a competência de Vicente - quanto mais não seja para multiplicar fontes de receita privada... Copiaram a vontade de ser poder e de ser bajulado de JES, a capacidade engolir todos os contratos e chamar a isso ‘ser esperto’ sem preocupações com imagem que também transmite Isabel dos Santos, de ser tão rico que a capacidade de comprar consciências e vontades se sobrepõe à espinha dorsal da maioria, de Vicente. Este é talvez o efeito mais multiplicador destas figuras e com mais reflexos na sociedade mesmo depois de anos da sua ausência da cena política. E é pena. Mas é com esperança sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro até à próxima, na sua Rádio Essencial.




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