SEGURANÇA MARÍTIMA

Pirataria somali regressa aos mares do Corno de África após uma década de calmaria

08 Sep. 2026 Valor Económico Mundo

Oito sequestros desde Abril reacendem o alerta sobre a segurança marítima, num contexto marcado por conflitos regionais, desvio de rotas comerciais e fragilidade institucional na Somália.

Pirataria somali regressa aos mares do Corno de África após uma década de calmaria
DR

A pirataria somali voltou a ganhar força ao largo do Corno de África, com oito sequestros registados desde o final de Abril, o nível mais elevado em cerca de uma década, numa altura em que os conflitos no Médio Oriente, a alteração das rotas marítimas e a instabilidade política na Somália estão a criar novas oportunidades para grupos piratas.

Dois dos casos ocorreram em Agosto, incluindo o sequestro de um petroleiro com ligações ao Irão e do navio Lutuf, de bandeira camaronesa, que transportava equipamento militar para a Turquia. O Lutuf acabou por ser libertado duas semanas depois, numa operação conjunta turco-somali que incluiu ataques contra embarcações utilizadas pelos piratas.

A actual vaga contrasta com o período entre 2005 e 2012, quando foram registados mais de mil ataques contra embarcações nas águas somalis e milhares de tripulantes foram feitos reféns. Segundo o Banco Mundial, os resgates pagos durante esse período chegaram a cerca de 400 milhões de dólares, até à intervenção de uma força multinacional antipirataria.

Para analistas de segurança marítima, ouvidos pelo The Guardian, a redução da presença de forças navais internacionais na região abriu espaço para o regresso dos ataques. A concentração de meios militares no Mar Vermelho e no Estreito de Ormuz, devido aos conflitos envolvendo o Irão e os houthis, terá reduzido a capacidade de patrulhamento no Corno de África e criado uma brecha aproveitada pelos piratas.

A alteração das rotas comerciais também aumentou a exposição das embarcações. Cerca de 70% do tráfego marítimo que anteriormente atravessava o Mar Vermelho está actualmente a ser desviado pelo Cabo da Boa Esperança, aproximando parte do movimento comercial da costa somali e criando novas oportunidades para ataques.

Além disso, o aumento dos preços do petróleo acrescenta outro factor de risco, ao tornar os carregamentos de crude alvos potencialmente mais valiosos. No caso do Lutuf, as autoridades locais indicaram que terá sido pago um resgate de 2,5 milhões de dólares, apesar da operação militar que levou à libertação da embarcação, levantando receios de que pagamentos elevados possam incentivar novos sequestros.

A capacidade limitada da Somália para garantir a segurança do seu extenso litoral continua, entretanto, a ser um dos principais obstáculos ao combate à pirataria. A fragilidade das estruturas estatais, a falta de meios de patrulhamento e as dificuldades no pagamento regular das forças costeiras mantêm o país vulnerável, por outro lado, enquanto permanece em aberto a capacidade e a disposição da comunidade internacional para voltar a mobilizar uma força antipirataria de dimensão semelhante à criada há mais de uma década.