A fé dos Bispos e a varredura do Chefe

10 Sep. 2026 Suely de Melo Opinião

Por estes dias que andaram a CEAST achou por bem, mais uma vez, vestir-se de pomba da paz e pedir ao MPLA e à UNITA o óbvio.

A fé dos Bispos e a varredura do Chefe
DR

Por estes dias que andaram a CEAST achou por bem, mais uma vez, vestir-se de pomba da paz e pedir ao MPLA e à UNITA o óbvio. Que se sentem, falem, criem um canal de comunicação directa e evitem que a intolerância política continue a moer gente. A ideia era bonita, mas a cultura de comunicação destes dois arquirrivais parece estar já bastante enraizada para se perder tempo com conversas. Tanto assim é, que dias depois do apelo do clérigo, lá estavam eles, os militantes dos dois lados a medir forças em Cacuaco. E para provar que quem treme é folha, Adalberto Costa Júnior e os seus súbditos voltaram ao Uíge, de onde há cerca de um mês, foram corridos como se não tivessem o direito de palmilhar o seu próprio país, tal quanto os que se acham donos disto tudo.

Enquanto a rua fervilhava com a sessão de pugilato entre camaradas e maninhos, no topo da montanha do ego, Abel Chivukuvuku contempla o cenário e conclui que o resto da oposição são meros figurantes.  Rejeita alianças e manda um recado. Sozinho, diz ele, basta para derrotar a máquina do MPLA. Haja autoconfiança. Talvez Chivukuvuku não tenha perdoado ACJ pela serenidade de 2022. Ou talvez man Chivas ache que ele sozinho foi o promotor dos resultados das eleições passadas e que por isso agora não precisa se ‘maguelar’ em ninguém. Enfim, vá-se lá saber o que ele pensa. O facto é que o mano Abel está 100% seguro de que em 2027 ele e as suas ‘imbambas’ vão pausar na Cidade Alta.

Na Cidade Alta, porém, o ritmo é outro. A escassos meses de arrumar as malas e fechar o mandato, João Lourenço vestiu a farda de varredor-geral e decidiu fazer aquilo que melhor sabe fazer: uma purga geral. Numa assentada, varreu dezenas de altas chefias das FAA e da Polícia Nacional. Exonera aqui, promove ali, roda comandante de província e reforma general.  General sai, general entra, comissário cai, comissário sobe. A habitual dança das cadeiras que visa garantir que, na hora do adeus, a tropa continua a marchar exactamente ao som do apito de quem manda.

E para fechar este quadro do desalento, vem de Lisboa um balde de água gelada. Durante anos, Portugal foi o refúgio dourado, ou desesperado de tanto angolano que preferiu tentar a sorte no fado do que morrer no semba da sobrevivência. Só que o Presidente português promulgou a nova Lei dos Estrangeiros e a torneira parece estar perto de se fechar. A rota de fuga parece estar a ficar apertada. O "sonho tuga" poderá deixar muita gente por cá a olhar para o mapa e a perceber que até para fugir das nossas ‘malambas’ agora vai ser preciso pedir muita batatinha a quem já se cansou de nos receber. Depois de vermos a porta da saída a ser trancada por fora, será que a nós que cá ficámos só resta mesmo contentar-nos a assistir o mete tira de João Lourenço, políticos a brincar aos super-heróis solitários e partidos a resolver divergências à pedrada?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 4 de Setembro de 2026