E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana de cimeiras...
Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana de cimeiras...
Enquanto entre nós o chefe recebia, a propósito da vigésima primeira Sessão Extraordinária da Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana e “nas vestes de campeão da União Africana para a Paz e Reconciliação pelo compromisso com a paz, diálogo e resolução de conflitos em África” - pergunto-me que conflito foi esse que ele resolveu – homenagens dos pares ou representantes dos pares que se deslocaram à capital, enquanto isso, acontecia outra cimeira na capital do Quirgistão, Bisqueque, em que o líder chinês Xi Jinping, o russo, Vladimir Putin, o premier da Índia, o do Paquistão, o líder do Irão e de outros cinco países se juntaram para condenar os ataques à Palestina e ao Irão como “violadores dos princípios e normas da lei internacional e da Carta das Nações Unidas”, com os devidos riscos para a estabilidade e segurança transnacional.
A cimeira promovida pela organização para a cooperação de Xangai, um bloco de dez países que formam nada mais nada menos do que a maior organização regional do mundo em termos de território e população — trata-se de mais de 40 por cento da população mundial —, visa, evidentemente, estabelecer um contrapeso ao poderio geopolítico, essencialmente, dos Estados Unidos. E a cimeira, que aconteceu pouco tempo depois das ameaças de Trump às nações que fizessem negócios com o Irão, decorreu com a cooperação económica e o mercado da energia e recursos combustíveis firmemente em cima da mesa, com a assinatura de tratados para expansão da cooperação que beneficie os estados membros do bloco.
Da cimeira em solo pátrio também saiu uma declaração, mais uma, desta feita com o compromisso de “mobilizar mecanismos inovadores de financiamento”... E sobre o tema de mobilização inovadora de financiamento o chefe poderá ter uma palavra a dar... Pode explicar por exemplo como mobilizar fundos no quadro das contratações simplificadas de que também se tornou “campeão” incontestável. Pode partilhar a sua expertise por exemplo sobre como pegar num grupo empresarial inexpressivo e em dois mandatos transformá-lo no maior conglomerado do país, com uma carteira transectorial, com diversos activos pivotais para a economia, vários bancos - pergunto-me até que ponto será legal uma mesma entidade se tornar dona de tantos bancos sendo o último reportado como adquido ao BPI português (que se retira da cena confusa angolana, provavelmente depois de muita pressão do Regulador Europeu que desanconselha partilhas com os angolanos cada vez mais), e que esta semana foi noticiada em Portugal na forma da venda do BFA ao grupo Carrinho... quanto à “mobilização inovadora de fundos” o chefe provavelmente terá muito a dizer mesmo que não seja bem claro de onde e para onde são movimentados os ditos fundos...
Mas, e agora pergunto eu, então não era este presidente que vinha combater a bajulação e os monopólios? Ele é homenagens como campeão da paz sem ter acabado guerras, prémios do ambiente ele que autoriza a exploração petrolífera em reservas? É grupos que engolem a banca e tudo o que de apetecível acontece na economia ao estilo monopólios que dizia combater, é filhos nomeados para instituições públicas... o que Aconteceu ao homem que parece ter se transformado a olhos vistos ipsis verbis no que pretendia combater?
Enquanto era homenageado “pelo compromisso com a paz, diálogo e resolução de conflitos em África”, enquanto fazia discursos mencionando a responsabilidade com as gerações futuras de africanos para que “possam viver num continente livre de guerras, mais próspero e mais seguro”, ele que é responsável por um verdadeiro êxodo de angolanos durante a sua vigência, João Lourenço era atrelado a um relatório da Amnistia Internacional sobre o país que governa, e sobre os refugiados do clima e da fome que no sul do país atravessam a fronteira para rumar à Namíbia. Angolanos que se encontram há anos sinalizados como vulneráveis, sendo que os avisos sobre o tema já vieram de variadas formas. “Não podemos acabar com esta situação?”- perguntava o ex-presidente namibiano que criticava o presidente angolano por permitir a exploração de crianças angolanas que ficam a pedir nas ruas ou a pastar gado na Namíbia e não têm acesso a educação ou saúde. Não há escolas em Angola? Que as crianças saem de Angola para vir pedir na Namíbia, perguntava o ex-presidente Pohamba… Não podemos acabar com essa situação enquanto gastamos milhares de milhões em salas de conferência para o chefe ouvir enaltecimentos por ser o campeão de um campeonato que está longe de ser ganho? Pergunto-me...
O relatório da Amnistia intitulado “Quanto mais seco fica, mais tempo de caminhada, mais fundo se tem de cavar: Os impactos nos direitos humanos de mulheres e crianças angolanas deslocadas na Namíbia, documenta as consequências devastadoras da seca recorrente no sul de Angola e os impactos em termos de direitos humanos sofridos pelas pessoas deslocadas para a Namíbia. Documenta a falta de acesso a educação ou a saúde, a exposição ao que se vai tornando um ambiente cada vez mais hostil a estes estrangeiros vizinhos... o Relatório apela à Namíbia para que respeite os direitos básicos, incluindo a documentação que legalize a sua estadia e ponha termo ao medo da detenção para deportação... Só entre janeiro e julho de 2021, mais de sete mil angolanos, maioritariamente mulheres, incluindo grávidas e crianças, atravessaram a fronteira em direcção à Namíbia. Isto são angolanos que fogem das províncias do Sul em busca de comida, água, sobrevivência. Pergunto-me como é que não se envergonham deste estado de coisas para que já foram alertados tantas vezes os nossos governantes, o nosso “campeão da paz africana?” Porque é que não se ocupa dos seus? Porque é que convive tão bem com a fuga massiva de cidadãos do país que governa? Com a fuga que se torna, no fundo, dos resultados da governação do governo que lidera? É com perguntas, mas com esperança, sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.




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