Roer as unhas à espera do acto final
As decisões do poder em Angola raramente deixam o público a roer as unhas à espera do acto final. A batida do martelo do Tribunal Constitucional sobre a providência cautelar de Higino Carneiro surpreendeu um total de zero pessoas.
As decisões do poder em Angola raramente deixam o público a roer as unhas à espera do acto final. A batida do martelo do Tribunal Constitucional sobre a providência cautelar de Higino Carneiro surpreendeu um total de zero pessoas. O General 4x4, com o peito calejado pelas guerras do partido e do país, e profundo conhecedor das entranhas do poder, fingiu acreditar na ilusão do Estado Democrático de Direito. Pegou no seu recurso e foi bater à porta do palácio de Laurinda Cardoso. Resposta? Improcedente. O "chumbo" do general na corrida à liderança do MPLA manteve-se intocado, limpo e devidamente carimbado. Felizmente, nas entrelinhas do acórdão, há sempre um murmúrio que rompe a unanimidade do coral. Coube à juíza conselheira Margareth Nanga assinar o voto vencido, num pequeno rasgo de rebeldia jurídica que serve para lembrar ao país que as decisões nem sempre são unânimes, mesmo quando são previsíveis. O voto de Nanga fica para a história como uma mera nota de rodapé institucional, um consolo moral que não devolve o boletim de voto a Higino, mas que expõe a falta de criatividade do próprio Tribunal.
Mas, afinal, qual será o futuro do general? Irá fundar um novo partido? Ou vai liderar uma insurreição de corredores? Ou pelo contrário, curvar-se-á à disciplina do rebanho? Será o seu destino a resignação na penumbra do Comité Central, a aplaudir com cinismo os actos do próximo chefe? Porque ao que tudo indica, pelo menos nesta vida, já não vai a tempo de concretizar o sonho do seu pai. A menos que, e a julgar pela serenidade do ‘General peito alto’, tenha uma carta envenenada na manga, e antes que travem, em definitivo, o seu voo político, decida atirar todo o excremento ao ventilador. Eu até sou suficientemente pacifista, mas não seria nada mau ver a elite da Cidade Alta a ter de engolir a própria poeira enquanto o edifício desmorona.
Mas o teatro político angolano não vive apenas das disputas de topo. Alimenta-se também da arte de contorcer as próprias promessas. Se enumerasse aqui tudo o que o nosso querido Presidente disse que faria e não fez e tudo o apontou como erros do seu antecessor e fez exactamente igual, não sairíamos daqui hoje. Mas voltemos a 2020 quando João Lourenço apareceu perante a nação com o discurso de que o país precisava de poupar, cortar na gordura institucional, fechar gabinetes e dar o exemplo de cinto apertado. O lema era "emagrecer o aparelho de Estado". Fundiram-se ministérios, falou-se na contenção de despesas, no fim das mordomias desnecessárias. E nós quase acreditamos que o Estado iria finalmente fazer dieta. Mas não demorou muito e tirou-se da cartola a Divisão Político-Administrativa. Num passe de mágica o país dividiu-se para multiplicar. Multiplicaram-se as províncias, criaram-se dezenas de novos municípios e, com eles, uma frota interminável de novos cargos. Novos governadores, novos vice-governadores, novos directores provinciais, novos administradores e os seus respectivos adjuntos. Uma autêntica fábrica de empregos públicos para acomodar a vasta clientela partidária. Agora, quase em fim de mandato, sem qualquer pudor financeiro, inventaram-se, num ápice, três novos Secretários de Estado. E assim, enquanto a massa trabalhadora continua a apertar o cinto até ao último buraco, a elite governa numa invejável aritmética onde a contenção de despesas resulta em multiplicação. Os mais esperançosos acreditam que em 2027 vamos, finalmente, virar a página, mas quantos rosários teremos de rezar para que assim seja?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 11 de Setembro de 2026




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