A Comédia dos Camaradas

29 Jul. 2026 Valor Económico Opinião

Há cerca de um mês, neste mesmo espaço, antecipei sem grande esforço de adivinhação que as 19 mil assinaturas pomposamente ostentadas pelo General 4x4 converter-se-iam, num piscar de olhos, em apenas mil válidas. Admito o erro de cálculo.

A Comédia dos Camaradas
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Há cerca de um mês, neste mesmo espaço, antecipei sem grande esforço de adivinhação que as 19 mil assinaturas pomposamente ostentadas pelo General 4x4 converter-se-iam, num piscar de olhos, em apenas mil válidas. Admito o erro de cálculo. O MPLA conseguiu demonstrar a sua bem conhecida "generosidade" e arredondou a conta para pouco mais de duas mil. Onde o general viu uma fortaleza de militantes convictos, a Subcomissão de Candidaturas viu apenas um amontoado de papelada sem qualquer serventia. O veredicto veio sem anestesia nem direito a contraditório. Chumbo directo por irregularidades e alegadas falsificações. Job Capapinha, que no dia da vistosa e ruidosa entrega dos documentos de Higino Carneiro tinha tomado um providencial e estratégico ‘chá de sumiço’, reapareceu finalmente. Surgiu altivo e em tom quase festivo para ler o bendito comunicado que, à partida, decreta o fim da caminhada do “General peito alto”. E para que não restem dúvidas sobre a requintada perversidade da máquina partidária, os camaradas tiveram a audácia de invalidar a totalidade das fichas vindas do Cuanza Sul, precisamente o território de caça do Buldózer. Ou seja, segundo Capapinha e ‘sus muchachos’ nem na sua própria terra natal o homem conseguiu mobilizar almas genuínas, tendo de recorrer, alegadamente, a métodos pouco salutares. Mas o veterano de guerra recusa-se a tombar. Com uma serenidade que quase parece emprestada pela UNITA, Carneiro convocou os seus subscritores a darem a cara e a defenderem, dente por dente, a autenticidade das suas assinaturas. O lado comicamente trágico da história reside na súbita revelação do pré-candidato. Logo ele, que conhece como ninguém as entranhas do "maioritário" e que tanto ajudou a edificar o ecossistema em que hoje se move, parece só agora ter descoberto a existência de injustiças, conspirações e malfeitores dentro do aparelho. Mesmo assim, entre a espada e a parede, garante querer preservar a unidade e defender os princípios e valores do partido. Como se eles ainda lá estivessem. E enquanto a poeira das assinaturas chumbadas ainda pairava no ar da sede do partido, a pouca distância, no Tribunal de Luanda, lia-se a sentença do mediático "Caso Russos". O colectivo de juízes deixou transparecer, que a narrativa alinhavada pelo Ministério Público, a mirabolante tese de uma conspiração internacional para desestabilizar o Estado e guindar a UNITA ao poder, não colava com a facilidade pretendida. Pelo menos no que tocava à "mão invisível" da oposição. O tribunal acabou por condenar os cidadãos russos a penas de 8 e 11 anos de prisão, enquanto o jornalista Carlos Tomé saía com dois anos de pena suspensa. Já o Secretário de Mobilização da UNITA, após quase um ano enjaulado sob o peso de acusações gravíssimas, acabou absolvido de todos os crimes. O Ministério Público, insatisfeito com o desfecho que desmontou metade do seu enredo, prontamente interpôs recurso. Enfim, esta semana enquanto uns testemunhavam que a justiça dos tribunais ainda sabe vestir a capa da imparcialidade, quando quer, outros descobriam, da pior maneira, que a "justiça do partido" não perde tempo com julgamentos. É célere, cirúrgica e limpa o terreno num fechar de olhos. Resta saber se é desta vez que o General 4x4 percebe que na sede do partido, o único carimbo que realmente valida alguma coisa continua a vir do palácio.

 

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 24 de Julho de 2026