A Comédia dos Camaradas
Há cerca de um mês, neste mesmo espaço, antecipei sem grande esforço de adivinhação que as 19 mil assinaturas pomposamente ostentadas pelo General 4x4 converter-se-iam, num piscar de olhos, em apenas mil válidas. Admito o erro de cálculo.
Há cerca de um mês, neste mesmo espaço, antecipei sem grande esforço de adivinhação que as 19 mil assinaturas pomposamente ostentadas pelo General 4x4 converter-se-iam, num piscar de olhos, em apenas mil válidas. Admito o erro de cálculo. O MPLA conseguiu demonstrar a sua bem conhecida "generosidade" e arredondou a conta para pouco mais de duas mil. Onde o general viu uma fortaleza de militantes convictos, a Subcomissão de Candidaturas viu apenas um amontoado de papelada sem qualquer serventia. O veredicto veio sem anestesia nem direito a contraditório. Chumbo directo por irregularidades e alegadas falsificações. Job Capapinha, que no dia da vistosa e ruidosa entrega dos documentos de Higino Carneiro tinha tomado um providencial e estratégico ‘chá de sumiço’, reapareceu finalmente. Surgiu altivo e em tom quase festivo para ler o bendito comunicado que, à partida, decreta o fim da caminhada do “General peito alto”. E para que não restem dúvidas sobre a requintada perversidade da máquina partidária, os camaradas tiveram a audácia de invalidar a totalidade das fichas vindas do Cuanza Sul, precisamente o território de caça do Buldózer. Ou seja, segundo Capapinha e ‘sus muchachos’ nem na sua própria terra natal o homem conseguiu mobilizar almas genuínas, tendo de recorrer, alegadamente, a métodos pouco salutares. Mas o veterano de guerra recusa-se a tombar. Com uma serenidade que quase parece emprestada pela UNITA, Carneiro convocou os seus subscritores a darem a cara e a defenderem, dente por dente, a autenticidade das suas assinaturas. O lado comicamente trágico da história reside na súbita revelação do pré-candidato. Logo ele, que conhece como ninguém as entranhas do "maioritário" e que tanto ajudou a edificar o ecossistema em que hoje se move, parece só agora ter descoberto a existência de injustiças, conspirações e malfeitores dentro do aparelho. Mesmo assim, entre a espada e a parede, garante querer preservar a unidade e defender os princípios e valores do partido. Como se eles ainda lá estivessem. E enquanto a poeira das assinaturas chumbadas ainda pairava no ar da sede do partido, a pouca distância, no Tribunal de Luanda, lia-se a sentença do mediático "Caso Russos". O colectivo de juízes deixou transparecer, que a narrativa alinhavada pelo Ministério Público, a mirabolante tese de uma conspiração internacional para desestabilizar o Estado e guindar a UNITA ao poder, não colava com a facilidade pretendida. Pelo menos no que tocava à "mão invisível" da oposição. O tribunal acabou por condenar os cidadãos russos a penas de 8 e 11 anos de prisão, enquanto o jornalista Carlos Tomé saía com dois anos de pena suspensa. Já o Secretário de Mobilização da UNITA, após quase um ano enjaulado sob o peso de acusações gravíssimas, acabou absolvido de todos os crimes. O Ministério Público, insatisfeito com o desfecho que desmontou metade do seu enredo, prontamente interpôs recurso. Enfim, esta semana enquanto uns testemunhavam que a justiça dos tribunais ainda sabe vestir a capa da imparcialidade, quando quer, outros descobriam, da pior maneira, que a "justiça do partido" não perde tempo com julgamentos. É célere, cirúrgica e limpa o terreno num fechar de olhos. Resta saber se é desta vez que o General 4x4 percebe que na sede do partido, o único carimbo que realmente valida alguma coisa continua a vir do palácio.
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 24 de Julho de 2026




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