E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço, onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que o DDT, versão global, anunciou o fim do cessar-fogo e bombardeou o Irão, que por sua vez procedeu a bombardear uma série de bases americanas à sua volta levando a que o Estreito voltasse a ‘estreitar’ o fornecimento de combustível mundial levando a nova alta de preços, que por sua vez há de ser acompanhada da respectiva inflação.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço, onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que o DDT, versão global, anunciou o fim do cessar-fogo e bombardeou o Irão, que por sua vez procedeu a bombardear uma série de bases americanas à sua volta levando a que o Estreito voltasse a ‘estreitar’ o fornecimento de combustível mundial levando a nova alta de preços, que por sua vez há de ser acompanhada da respectiva inflação. E disparou para perto dos 80 dólares, o preço do ouro negro que nos sustenta... e que sustenta, apesar do ministro de Estado tentar convencer quem ouve de que a economia angolana já não é petrolífera - agora é agrícola.
É tão gira, tão ‘in’ essa ideia de que a economia já não é petrolífera; agora é agrícola… transmite a sensação de que agora em vez de exportarmos barris de líquido escuro, exportamos mandiocas e alfaces… ou que estamos com tal robustez económica que porventura exportamos os dois, mas mais alfaces e mandiocas tudo, porque “o PIB agora é agrícola, não petrolífero”… na mesma senda, um dos principais sustentos do petróleo são os impostos do sector, mas certamente que agora que ‘somos uma economia agrícola’, os impostos gerados pelo sector agrícola já enchem os cofres da AGT e as divisas da exportação enchem os cofres do BNA… Devemos ser uma economia de tal ordem agrícola que, certamente, não teremos necessidade de importar produtos agrícolas, tal é a importância do aumento da produção… devemos ser uma economia agrícola apesar das queixas constantes dos produtores de que faltam insumos, porque assim dita o peso que o sector terá no PIB com as devidas engenharias para leitura, mas ... e agora pergunto eu, que economia agrícola é essa em que continuam mais de oito milhões de angolanos, mais de 20% da população, a sofrer de desnutrição, e mais de metade habitam no limiar da pobreza ou no seu vasto espaço? Que economia agrícola é essa que não dá de comer aos seus?
Os dois produtos agrícolas que compunham quase 90 por cento do volume total da produção no ano passado - que atingiu cerca de 20 toneladas - eram a mandioca e o milho. E enquanto a mandioca já dispensa importação, perfazendo quase 70 por cento da produção total angolana - e que diz muito da diversificação da produção - o milho que vem em segundo lugar, continua aquém das necessidades do país, com cerca de cinco milhões declarados como produzidos (o que pode ser diferente de produzidos na realidade), mas necessidade de importar centenas de milhar de toneladas para compensar o déficit. No ano passado, foram importadas cerca de 300 mil toneladas de milho, o que é pouco para alimentar o consumo interno e o consumo animal no país de economia agrícola sobre o qual o ministro insiste…
As vezes parecemos um país de slogans bonitos... o ministro de Estado parece querer que “a economia que já não é petrolífera é agrícola” se torne slogan da moda como tivemos outras tentativas ainda menos felizes recentemente “Angola é a placa giratória” ou outras como o indizível “salto da gazela” e mais antigas como o “canteiro de obras” que aliás nunca parece ter deixado de ser. Continua um país de slogans bonitos, que, como dizia a professora Cesaltina Abreu, entrevistada recentemente na Rádio Essencial, “é um país de potencial, mas que há décadas não sai dele”.
A propósito desse potencial e dos slogans da governação, a saúde é, sem dúvida, um dos mais cantados, ‘a saúde como prioridade’, reiterada não poucas vezes pelo presidente e seu séquito, como a prioridade estratégica que evoca outros chavões como “a expansão da rede sanitária”, o “aumento da capacidade hospitalar”, os “investimentos no sector” e outros de que se houve falar nos discursos sobre o Estado da Nação. A saúde é frequentemente - não apenas reiterada como objectivo de topo - mas também um recipiente de investimento público a condizer. Ainda no mês passado o chefe de Estado e do estado de coisas autorizou um acordo para um financiamento (não é oferta, financiamento significa que a conta há de vir mais tarde), de 250 milhões de dólares para emergências de saúde.
Mas é nos resultados, para não fugir à regra, que está o busílis.
Um dos temas a marcar a nossa actualidade esta semana foi a continuada ausência do chefe de Estado e do estado de coisas do país, segundo notícias (ou boatos), porque não existe explicação oficial - por motivos de saúde - a tal saúde que, segundo os slogans, é prioritária e tal… consome biliões, mas continua a não estar à altura da saúde do chefe…
Assim como não estava do anterior chefe, cujas visitas de saúde a Espanha também criavam especulação, até que por lá ficou mesmo. Seguindo a tradição do primeiro presidente que também morreu no exterior para onde tinha ido em busca de tratamento de saúde.
Toda a especulação em torno da saúde do presidente faz-nos parecer um tanto quanto ansiosos como povo... O chefe ainda não fez um mês fora e os temas da ‘ausência prolongada’, de ‘quem devia estar a assumir os destinos da nação’, da ‘sucessão’ e etc. já saem para a rua. Isto quando outros países africanos acostumaram-se mesmo a viver em estado de ‘presidente ausente’.
O antigo presidente da Nigéria, entre 2015 e 2023, Muhammadu Buhari, passou 225 dias fora do país, naquilo que o ministro da Saúde sul-africano classifica como turismo médico. E está longe de ter o trono. O presidente camaronês Paul Biya, reeleito aos 92 anos no ano passado para o oitavo mandato, a quem já apelidam de “o dono da casa ausente" nos Camarões, passou um cúmulo de cinco anos fora do país. Fica rotineiramente períodos de entre 30 e 50 dias fora ‘em manutenção’ na Suíça, o que custa milhões ao seu país que paga as deslocações, e governa à distância.
Nós estamos há um pouco mais de duas semanas sem saber do chefe - que não tem obrigação constitucional de dar cavaco, e faz questão de não dar mesmo - e são boatos, especulação e rezas por todo o lado…
Mas é com esperança sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro até à próxima na sua Rádio Essencial.




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