Fome continua acima das metas globais e afecta 645 milhões de pessoas
RELATÓRIO. Números das Nações Unidas sustenta 66,6% da população africana não consegue suportar o custo de uma alimentação saudável, mais do que o dobro da proporção observada na Ásia e na América Latina e Caraíbas.
A fome continua a representar um dos maiores desafios globais, apesar dos progressos registados nos últimos anos. Em 2025, cerca de 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome em todo o mundo, um número que permanece muito acima da meta estabelecida pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, segundo a edição de 2026 do relatório "O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo" (SOFI), divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU).
O documento mostra que o acesso a uma alimentação saudável continua fora do alcance de uma parcela significativa da população mundial. Estima-se que 2,69 mil milhões de pessoas, o equivalente a 32,7% da população global, não tinham condições económicas para adquirir uma dieta equilibrada em 2025. Embora esse número represente uma melhoria em relação aos 2,97 mil milhões registados em 2021.
De acordo com o relatório, 66,6% da população africana não consegue suportar o custo de uma alimentação saudável, mais do que o dobro da proporção observada na Ásia e na América Latina e Caraíbas. A ONU alerta que esta realidade compromete o combate à fome, à desnutrição e às doenças associadas à má alimentação.
No estudo, a instituição sustenta que o custo médio mundial de uma alimentação saudável aumentou de 2,94 dólares PPC por pessoa/dia, em 2017, para 4,28 dólares PPC em 2025. A América Latina e Caraíbas registam o custo mais elevado, com uma média de 4,91 dólares PPC por pessoa por dia.
Segundo os especialistas, os alimentos mais nutritivos são também os mais caros. Produtos de origem animal, frutas e hortaliças representam cerca de 70% do custo total de uma alimentação saudável, enquanto os alimentos básicos ricos em amido têm um peso relativamente reduzido na despesa das famílias.
O estudo conclui que grande parte do preço pago pelos consumidores não está relacionada com a produção agrícola propriamente dita. Entre 70% e 75% do valor final dos alimentos corresponde às etapas posteriores à produção, como processamento, transporte, armazenamento, logística e distribuição. Em alguns casos, até 40% do custo total concentra-se nessas actividades.
Para os autores do relatório, melhorar a eficiência das cadeias agroalimentares, reduzir as perdas e o desperdício de alimentos e reforçar infra-estruturas como sistemas de irrigação, transporte e cadeias de frio poderá reduzir significativamente o preço dos alimentos nutritivos.
O relatório conclui que reduzir o custo de uma alimentação saudável exige políticas públicas adaptadas à realidade de cada país, incluindo investimentos em investigação agrícola, aumento da produtividade, revisão dos subsídios agrícolas, melhoria das infra-estruturas rurais e facilitação do comércio.
As Nações Unidas defendem ainda que o fortalecimento dos sistemas agroalimentares pode produzir benefícios simultâneos para a nutrição, a segurança alimentar, a resiliência económica e o combate às alterações climáticas.







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