O que é feito do camarada Presidente?!
Há precisamente 18 dias que os angolanos munidos de lanternas e lupas andam procura do nosso mui amado Presidente da República.
Há precisamente 18 dias que os angolanos munidos de lanternas e lupas andam procura do nosso mui amado Presidente da República. A ausência é tão prolongada que a nossa clássica e calorosa hospitalidade quase nos obriga a começar o, entre nós, habitual "bate lata". Como a natureza abomina o vácuo, a mística "visita privada" começou a alimentar as mais férteis teorias da conspiração. Há quem jure de pés juntos que o Chefe de Estado foi até às terras de Vera Cruz tentar encontrar nos hospitais brasileiros aquilo que a nossa "robusta" e "modernizada" rede sanitária teima em não oferecer. Outros sugerem que o homem foi simplesmente para um retiro espiritual algures no Atlântico para curar o ego. Dizem que ainda não recuperou do embate psicológico provocado pelas mais de 19 mil assinaturas que Higino Carneiro desfilou orgulhosamente, abafando sem qualquer cerimónia as modestas e quase vergonhosas "ka" 11 mil da liderança oficial. É muita assinatura para digerir num estômago só. Tudo isto surge, claro, só e apenas porque o "todo-poderoso" com aquele tom paternalista que tão bem lhe assenta, acha que o povo não merece a mais elementar justificação. Enquanto o Chefe joga ao esconde-esconde com a sua própria agenda pública, a máquina propagandística da página oficial da Presidência não dorme. Pelo contrário, trabalha em regime de fakenews institucionalizado, entupindo-nos diariamente com o "fantasma" de Sua Excelência. É um festival de mensagens de felicitações enviadas a homólogos e decretos presidenciais. Para dar um tom mais convincente, talvez na próxima semana, sejamos brindados com despachos de exonerações. O Presidente pode não estar, mas o seu carimbo goza de excelente saúde. E como diz o velho ditado popular, "quando o gato não está, os ratos fazem a festa". Na efeméride que assinalou o quarto ano do falecimento de José Eduardo dos Santos, assistimos a um milagre editorial. Até a nossa imprensa pública, aquela mesma que outrora sofria de amnésia colectiva e não via qualquer relevância jornalística na chegada dos restos mortais do homem que durante décadas foi o "oxigénio que respiramos", recuperou subitamente a memória. O dia 8 de julho trouxe a clássica, coreografada e previsível romaria de homenagens. Os mesmíssimos rostos que ontem lhe viraram as costas, hoje voltam a exaltar a sua "figura incontornável", a sua "visão estratégica", a sua "liderança clarividente" e blá-blá-blá… Enfim, a hipocrisia... No campeonato da ficção macroeconómica, fomos abençoados esta semana com duas pérolas. Primeiro, o anúncio triunfal de que o Kwanza passará a ser aceite como moeda de pagamento na SADC já a partir deste mês. Uma notícia absolutamente fantástica, capaz de arrancar lágrimas de orgulho a qualquer patriota… Chega a emocionar ver o nosso "Kwanza burro", que trava uma batalha diária e inglória para não ser humilhado e pisado por quase todas as moedas do planeta, fingir de repente que tem superpoderes transfronteiriços na África Austral. Para fechar o espetáculo com chave de ouro e garantir que o topo da pirâmide capitalista continue bem nutrido, assistimos de camarote ao arranque da privatização da Unitel na BODIVA. A tão propalada e esperada Oferta Pública de Venda de acções finalmente começou. O evento deixou os analistas de mercado e os comentadores económicos de fato e gravata num transe quase místico, profetizando uma "elevada procura" e um "marco histórico na democratização do capital". Enquanto isso, nas ruas poeirentas do mundo real, o cidadão comum, aquele que não vive da ficção dos relatórios do FMI, faz contas complexas à vida. O dilema do angolano actual passa por aventurar-se no mercado financeiro para comprar uma acção impalpável da Unitel ou usar esse mesmo dinheiro para garantir um saco de arroz que lhe cale a fome por mais uma semana. Resumindo, foi apenas mais uma semana perfeitamente normal no nosso cantinho do mundo: o Kwanza finge que é forte, a Unitel finge que é do povo, a diplomacia finge que trabalha arduamente e o Presidente... bem, esse continua a jogar às escondidas, algures pelo Atlântico.
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 10 de Julho de 2026




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