LUCROS CONCENTRADOS, DIVIDENDOS AUSENTES E EMPRESAS SEM FUTURO

Os resultados do exercício de 2025 do Sector Empresarial Público (SEP) deixam muito mais perguntas do que respostas.

LUCROS CONCENTRADOS, DIVIDENDOS AUSENTES  E EMPRESAS SEM FUTURO
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Os resultados do exercício de 2025 do Sector Empresarial Público (SEP) deixam muito mais perguntas do que respostas. Embora o agregado das empresas estatais apresente resultados positivos, uma leitura mais atenta dos números revela fragilidades estruturais que continuam por resolver e que o Estado já não pode continuar a adiar.

A primeira delas é a excessiva dependência da Sonangol. A petrolífera continua a ser, de forma esmagadora, a principal responsável pelos lucros do sector empresarial público e, simultaneamente, a empresa que mais dividendos propõe distribuir ao Estado. O problema é que, pelo menos nos últimos três exercícios, existe um desfasamento entre o que a empresa propõe e o que efectivamente entra nos cofres públicos. Os relatórios agregados dos anos seguintes não evidenciam a materialização desses pagamentos, levantando dúvidas sobre a execução das deliberações, a transparência do processo e a real capacidade do Estado de transformar resultados contabilísticos em receitas efectivas. Dividendos propostos não pagam escolas, hospitais, estradas nem reduzem o défice orçamental.

Outra realidade preocupante encontra-se no sector da agricultura, floresta e pescas. As oito empresas públicas que nele operam acumularam, nos últimos três anos, prejuízos superiores a 184,26 mil milhões de kwanzas. Não se trata de um resultado ocasional, e é legítimo questionar o interesse em mantê-las na esfera do Estado. Ao contrário de sectores onde a presença pública pode justificar-se por razões de segurança nacional ou de estabilidade social, neste caso impõe-se uma avaliação rigorosa da viabilidade económica destas empresas, incluindo a sua reestruturação, privatização ou mesmo extinção.

Os dados de 2025 revelam ainda uma ironia difícil de ignorar. Entre as empresas que mais dividendos entregaram ao Estado destacam-se o Standard Bank Angola e a Unitel, responsáveis, respectivamente, por 39,6 mil milhões e 20,2 mil milhões de kwanzas. Juntas, representaram cerca de 79,1% de todos os dividendos recebidos pelo Estado. O aspecto mais curioso é que ambas chegaram à esfera pública na sequência de processos judiciais e não por decisão estratégica de investimento. Ou seja, activos incorporados por circunstâncias excepcionais sustentam hoje a principal fonte de rendimento accionista do Estado.

Esta realidade lança uma questão inevitável: estará o Estado a gerir melhor os activos que recebeu por via judicial do que aqueles que sempre controlou ou estará apenas a beneficiar da boa gestão que encontrou quando esses activos passaram para a esfera pública?

Se esta última hipótese for verdadeira, emerge uma segunda questão, igualmente incontornável: estará o Estado preparado para preservar a rentabilidade destes activos ou, com o passar do tempo, correrão eles o risco de seguir o mesmo caminho de tantas empresas públicas que acabaram por se tornar estruturalmente deficitárias?

O verdadeiro desafio do Sector Empresarial Público deixou de ser os lucros agregados, sobretudo porque umas poucas empresas garantem estes resultados positivos, escondendo os saldos negativos das maiorias.

O maior desafio é garantir diversidade e sustentabilidade desses lucros e, sobretudo, transformá-los em receitas efectivas para o Estado e em benefícios concretos para os cidadãos. Enquanto a rentabilidade continuar excessivamente concentrada numa única empresa, os dividendos permanecerem por cobrar e empresas inviáveis continuarem a consumir recursos públicos sem perspectivas de recuperação, Angola continuará a administrar um património empresarial demasiado pesado para os resultados que produz.