O banquete dos deuses e a estabilidade dos miseráveis

10 Jun. 2026 Suely de Melo Opinião

No Parlamento, os nossos ‘mui nobres’ deputados e o seu líder aprovaram, com a urgência que o estômago exige, um aumento salarial. Perdão… sejamos burocraticamente correctos. Aprovaram um "reajuste indexado à função pública", devidamente autorizado pelas tabelas do Estado. E por qual motivo.

O banquete dos  deuses e a estabilidade dos miseráveis
Mário Mujetes

No Parlamento, os nossos ‘mui nobres’ deputados e o seu líder aprovaram, com a urgência que o estômago exige, um aumento salarial. Perdão… sejamos burocraticamente correctos. Aprovaram um "reajuste indexado à função pública", devidamente autorizado pelas tabelas do Estado. E por qual motivo? Para "repor o poder de compra". Quanta sensibilidade económica. Enquanto o cidadão médio faz malabarismos matemáticos para esticar o salário até ao dia 10, os nossos representantes sofrem em silêncio nos seus gabinetes climatizados. Afinal, a inflação é cruel e chega aos bolsos de todos, e ninguém quer ver um deputado a ter de escolher entre o caviar nacional ou o importado. O poder de compra deles é sagrado, o do resto do país é capricho. Mas não se preocupem, porque dinheiro há de haver, e muito provavelmente vai sair, em parte, da mais recente e brilhante inovação fiscal: a taxa de limpeza e saneamento de 10% acoplada à factura da electricidade. Agora, se quiser ter a audácia de acender uma lâmpada em casa para ver a sujidade que se acumula na rua, paga mais dez por cento. Não poderia haver maior incentivo. Se não quiser pagar a taxa, basta viver às escuras.

E por falar em estabilidade e bem-estar, e porque estamos no mês em que se lembra das criancinhas, o Instituto Nacional da Criança veio a público tranquilizar-nos a todos. Afinal a situação da criança em Angola está "estável". Ah pois claro que está. Se uma criança nasce na rota da sobrevivência, cresce a fugir dos carros para vender gasosa no trânsito e vai para a escola (quando há) sem pequeno-almoço, e continua a fazer isso todos os dias... não haja duvidas, isso é a própria definição de estabilidade. Não há sobressaltos. Estável, como um paciente em coma que não piora, mas também não acorda. Enquanto isso, na Ilha de Luanda, os jovens ‘maninhos’ tiveram a audácia de tentar fazer uma actividade política. Pobres ingénuos. Esqueceram-se de que a Polícia Nacional zela pelo silêncio e pela ordem pública com um carinho maternal. Como resultado, 19 jovens detidos. Mas também, não sabem os maninhos que o espaço público serve para passear, não para pensar ou, Deus nos livre, fazer oposição? As ruas, afinal, têm donos, e esses donos só as autorizam para marchas de apoio às mais criativas absurdidades. E por falar neles… a preparação do IX Congresso dos camaradas continua a dar-nos entretenimento puro, ao mais alto nível. Ora, o general Higino Carneiro queixou-se de um tal de tratamento desigual entre o já candidato e os pretensos candidatos. Ao que a Comissão respondeu, com aquele habitual toque de desdém, que não há o mínimo tratamento desigual e que "estranha" que o veterano não conheça os estatutos do partido do seu coração. É engraçado ver que, mesmo depois de décadas a partilharem as mesmas cadeiras e os mesmos banquetes, uns de um lado ainda consigam fingir surpresa com as regras do jogo que eles próprios inventaram, e outros sempre consigam descer mais baixo no tal jogo político. Mas está tão bom que o General 4x4 foi obrigado a apresentar um pedido de impugnação da candidatura do maioral. Vai aquecer ou não vai aquecer? Assim mesmo, na próxima semana vamos a assistir mais uma conferência da tal comissão preparatória a mandar mais umas puchlines ao seu camarada e os órgãos de justiça a descobrirem o esconderijo dos tais brinquedos desviados pelo general. Mas é como diz a velha máxima: no xadrez da política, quem não lê as entrelinhas acaba comido pelos peões. Resta-nos aguardar, com as respectivas pipocas, para ver como vai terminar esta série. No final do dia, o cenário é perfeito. O deputado ganha mais, o cidadão paga mais para não ter o lixo à porta, a criança continua estavelmente na miséria, a oposição vai presa por tentar falar e o partido no poder, à beira da implosão, diverte-nos com os seus ‘kizangos’.

Enfim, resta-nos a pergunta: nesta história quem é mais ingénuo, o general que ainda acredita nas regras do partido que ajudou a criar, ou o povo que continua a ver este circo sem perceber que é o verdadeiro palhaço?

 

*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 5 de Junho de 2026