dados recentes do INE

Economistas avisam: Desaceleração da inflação não trava perda de poder de compra em Angola

O recente anúncio do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a desaceleração da inflação em Angola não está a refletir-se no custo de vida real da população. O alerta está a ser lançado por economistas, que avisam que o alívio estatístico não se traduz numa melhoria imediata para as famílias, apontando barreiras estruturais que continuam a sufocar o poder de compra. 

Economistas avisam: Desaceleração da inflação não trava perda de poder de compra em Angola

De acordo com os especialistas, a perda contínua de rendimento real é agravada por dois fatores críticos que impedem a estabilização dos preços no mercado de consumo como os elevados custos logísticos e as profundas assimetrias regionais entre as províncias.

Para o economista e consultor Abraão Hungulo, a desaceleração da inflação nacional não elimina a pressão sobre os preços. O especialista sublinha que “a descida da inflação não é deflação”, alertando que “os preços continuam a subir, apenas a um ritmo menos acelerado”. Na sua leitura, o comportamento dos transportes continua a ser determinante, ao representar um dos principais factores de pressão: “enquanto o custo de mover mercadorias depender fortemente de factores externos, o angolano continuará a sentir o peso da inflação no dia-a-dia”.

Hungulo considera que as assimetrias regionais resultam sobretudo de diferenças estruturais profundas entre províncias. “Angola não é um mercado unificado; é um território com custos de conectividade muito diferentes”, afirma, apontando três factores principais: transporte, capacidade produtiva local e estrutura de mercado. No caso de Cabinda, defende que o custo logístico “não é apenas um acréscimo no preço, é o próprio preço do produto”, devido à sua condição de enclave.

Já o Huambo, segundo o economista, beneficia da sua vocação agrícola e de circuitos curtos de distribuição. “Quando uma província produz o que consome, ela blinda-se contra choques externos”, explica, sublinhando que a maior concorrência local ajuda a conter a inflação.

Ainda no mesmo sentido crítico, Hungulo defende que a redução das assimetrias depende de reformas estruturais: “não basta política monetária; é preciso investir em logística, produção agrícola e mercados mais competitivos”.

Por sua vez, o economista João Capitango levanta dúvidas sobre a leitura dos próprios dados oficiais, referindo que “há economistas que põem em causa os números do INE, embora não haja alternativa de referência, pelo que temos de confiar nos dados disponíveis”. Ainda assim, sublinha que a inflação reduz directamente o poder de compra: “se o preço sobe e o salário não acompanha, há perda de rendimento real”.

Capitango defende que a resposta das famílias é limitada, sobretudo em bens essenciais: “se o pão ou a água sobem de preço, não há substitutos próximos”, o que obriga a intervenção do Estado através de apoios sociais e subsídios.

O economista acrescenta que o custo de vida elevado nas cidades não explica, por si só, o êxodo rural. “As pessoas saem do campo não apenas por causa dos preços, mas pela falta de condições básicas como saúde, energia e internet”, afirma, defendendo uma estratégia de atracção de investimento para o interior do país.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que a inflação tem vindo a desacelerar de forma consistente ao longo do ano, reflectindo uma redução gradual do ritmo de crescimento dos preços na economia. A taxa homóloga recuou de 14,56% em Janeiro para 10,88% em Maio, evidenciando uma menor pressão inflacionista face ao mesmo período do ano anterior. Contudo, a inflação média dos últimos 12 meses continua elevada, situando-se em 21,14%. Este cenário sugere que, embora a trajectória da inflação seja descendente, o custo de vida permanece elevado, afectando de forma desigual as diferentes províncias e expondo persistentes assimetrias económicas e sociais no território nacional.