E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que a Europa parece finalmente estar a ficar farta das mudanças de humor erráticas do presidente da nação mais poderosa do mundo, que entrou - sob a batuta de Israel - numa guerra com o Irão e agora quer recrutar os países da mesma nato que volta e meia ele destrata para entrarem num conflito em que não foram tidas nem achadas.
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana em que a Europa parece finalmente estar a ficar farta das mudanças de humor erráticas do presidente da nação mais poderosa do mundo, que entrou - sob a batuta de Israel - numa guerra com o Irão e agora quer recrutar os países da mesma nato que volta e meia ele destrata para entrarem num conflito em que não foram tidas nem achadas. A Alemanha recusou-se a participar militarmente no conflito. O Reino Unido, que historicamente segue os EUA em todas as suas aventuras — que levam o seu tipo especial de democracia e têm o condão não apenas de encontrar frequentemente petróleo, mas também de destruir a soberania de regiões inteiras —, até o Reino Unido recusou o convite para entrar na guerra que os EUA começaram e que parecem não saber como terminar. E agora pergunto eu... Será um sinal dos tempos?
Ainda sobre os EUA, através do perfil do comentador e jornalista Edson Neto, apercebi-me de uma reportagem do Guardian que, depois, percebi ser também do New York Times, que focava nos sapatos, um ou dois tamanhos pelo menos acima, que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, tem usado com frequência. Segundo o New York Times, para além de Rubio, o vice-presidente JD Vance e o secretário para os transportes Sean Duffy, foram todos fotografados a arrastar sapatos demasiado grandes para os seus pés. O estranho facto, segundo o Times, remonta a janeiro, quando o presidente Trump disse ao jornal que tinha “comprado sapatos para os seus miúdos” (miúdos do governo) porque “não os queria de ténis e que assim ficavam todos arranjadinhos e bonitinhos”. O Times foi atrás do fornecedor dos sapatos que Trump ofereceu aos seus miúdos e trata-se de sapatos feitos fora da América - lá se vai mais uma vez a América first - e que custam 145 dólares, (longe das fortunas absurdas dos sapatos que o nosso PR levou para ambientes de defesa do ambiente apesar de serem de pele de crocodilo que custam em torno dos dois mil dólares e que não o fazem parecer muito melhor que o bicho sacrificado pela pele)...
A peça do Guardian, mais explicita, relaciona os tamanhos acima com complexos de inferioridade física acicatados pelo próprio presidente Trump quando andou a recolher os tamanhos de sapato dos seus “miúdos” como diz. Segundo o Times, um deles, membro do governo, terá dito que calçava 38, e Trump terá respondido que “se pode dizer muito de um homem pelo tamanho que calça,” um comentário que levou os outros a empolar o tamanho do pé e consequentemente, a andarem agora a arrastar sapatos bem maiores do que calçam nas reuniões do governo... uma história surreal mas que mostra até que ponto de ridículo e desconforto as pessoas estão dispostas a ir para bajular o chefe: andar com sapatos maiores do que o pé porque foi o chefe que deu... Uma metáfora que ilustra a que tipo de gente está entregue o poder mundial... de um lado a lideres infantis que acreditam que as pessoas se medem aos palmos, e do outro aos seus seguidores, que se dispõem ao absurdo para respirarem a esfera do poder, invertebrados incapazes de dizer “este sapato é muito grande para o meu pé...”
E pergunto-me se, entre nós, não teremos essa estirpe de incapacidade... A nossa versão dos sapatos bem maiores do que o pé pode ser visível pelo menos num hábito que tem o líder: o de sentar com as pernas escancaradas, e que se vê tantos membros do governo a imitar desde que o líder assumiu o trono das mãos do anterior, que, apesar de todas as faltas a nível de governação (e que o actual aperfeiçoou), pelo menos sabia sentar-se com etiqueta.
A propósito dessa governação faltosa, o PGR eleito nesta semana terá sido, segundo publicações, instrumental naquela farsa teatral deprimente que fabricou um golpe de Estado por jovens leitores de livros e que se tornou, sem dúvida, numa das maiores nódoas da governação Eduardista. Uma nódoa que expôs o que de tanto andava podre no sistema e que começa na interferência do poder político na esfera judicial, passando pela manipulação da opinião pública através da media: o processo dos 15+1. A promoção de um procurador-geral com esse histórico lembra esse aperfeiçoamento dos erros do passado promovido pelo líder actual. Não conhecemos os méritos da figura escolhida, mas esse demérito da participação no julgamento daqueles jovens é bem conhecido; até porque, ao contrário da magistrada que o acompanhava, o actual PGR não se podia esconder atrás de uma peruca.
A ver, vamos ver o que traz agora que tem a missão de defender a legalidade democrática, os interesses do Estado e dos cidadãos, através do cumprimento da Constituição, que é tantas vezes atropelada entre nós.
Por falar nesses atropelos à constituição que protege o direito de informar e de ser informado, direitos humanos reconhecidos internacionalmente, participei, no final da semana, num encontro promovido pela CEAST a propósito do jubileu dos jornalistas e da visita do Papa que se avizinha. Foi refrescante encontrar colegas de profissão que não via há tempo a mais e conhecer novos colegas de todo o país, incluindo da minha província de origem, o Namibe, onde nasceu a minha mãe.
Os exercícios que ligavam a teologia aos direitos humanos, sendo que eu estava a participar em nome do Comité de Protecção dos Jornalistas, que é precisamente uma ONG focada nos direitos humanos, concretamente no de informar e ser informado e na liberdade de expressão que são direitos consistentemente atropelados pelo sistema, os exercícios punham os jornalistas a olhar para si mesmos e reflectir se têm feito o trabalho de publicar sobre o que vêem à sua volta, sobre a diversidade de opinião, ou se pelo caminho se tornaram ‘tudólogos’ ou se distraíram com as pautas agendadas de tal ordem que acabam ignorando e marginalizando essas opiniões - que no nosso caso são muitas vezes da maioria por representar - em prol da versão do poder de quem detém os órgãos. No caso deste espaço de opinião o objectivo é incentivar essa diversidade que contribui para o debate, para a reflexão pública e para essa diversidade que é tão importante enquanto pilar democrático. O próprio Papa várias vezes menciona a importância da imprensa como pilar social e apela à libertação de jornalistas presos e esperamos que o faça novamente na visita ao continente africano, até porque dois dos países onde vai têm nove jornalistas presos neste momento por fazerem o seu trabalho de reflectir opiniões que por vezes são divergentes do que interessa aos regimes, nomeadamente Camarões e Argélia.
A actividade foi óptima para trazer essa lembrança da razão de ser do jornalismo, do porquê que todas as opiniões são poucas para reflectir o que se passa à nossa volta e de como - mais do que seguir a agenda do governo - que vai começar a estar cheia de propaganda pre-eleitoral - na semana que passou o chefe já autorizou dinheiros para cestas básicas e os donos dos rallys de entorpecentes já começaram a vender o seu peixe podre – nesta fase é cada vez mais importante lembrar que o trabalho do jornalista é o de - dentro do código deontológico que rege a actividade, reflectir a alma, o dia a dia diverso que o rodeia... mais do que homogeneizar para cumprir propaganda quer do regime ou que qualquer outra força que vise instrumentalizar a opinião pública. É com essa lembrança atempada e esperança renovada, querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.




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