E agora pergunto eu...

15 Apr. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana marcada a nível internacional pela ameaça de um presidente de dizimar uma civilização inteira...

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana marcada a nível internacional pela ameaça de um presidente de dizimar uma civilização inteira... isto para não mencionar os posts anteriores do mesmo no Twitter, que levaram o Irão literalmente a gozar online dizendo que tinham “perdido as chaves do estreito de Ormuz”. As publicações do presidente americano online - será que não há uma alma caridosa que lhe tire o telefone das mãos - as publicações lembram cada vez mais a frase do escritor e filoso italiano Humberto Eco quando dizia que “as redes sociais deram direito à fala a legiões de imbecis que anteriormente falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à colectividade. Diziam-lhes imediatamente que se calassem. Mas agora têm o mesmo direito à fala que um Prémio Nobel”, dizia Eco autor de maravilhas como 'o Nome da Rosa' cujo palco é a igreja, longe de antecipar os comentários de Trump acerca do Papa esta semana. Neste caso, trata-se de descobrirmos que tudo o que um high level fala, pensa, escreve é equiparável a qualquer imbecil num bar depois de uma taça de vinho, apesar de se tratar do presidente da nação mais poderosa do planeta... que, graças a Trump e às suas políticas erráticas, parece cada dia ir perdendo mais esse estatuto.  

Entre nós a actualidade, que andava marcada pela sinistralidade rodoviária, andou esta semana marcada pela sinistralidade pluviométrica... E agora pergunto eu: haverá fim ao número de ameaças à vida dos angolanos em Angola? Porque é que se morre tanto entre nós, com tanta facilidade, com tanta frequência? Umas horas de chuva e é rezar para que não morra muita gente, é rezar para que não chova de noite, umas horas de chuva e quase meia centena de mortos, mais de 50 mil afectados, casas desabadas, propriedade destruída pelo vandalismo torrencial que o Estado - sempre tão atarefado com a criação de leis - por absoluta incompetência não consegue criminalizar.

Os problemas da falta de saneamento, de falta de valas de drenagem, das construções de risco andam identificados há décadas, mas vem ministro, sai ministro, vem governador, sai governador, com ou sem Omapatalo, e a verdade é que umas horas de chuva e a disfuncionalidade persiste: é preciso rezar sempre para que não morra muita gente, para que a chuvada não seja à noite, para que os cabos de electricidade não caiam nas ruas transformadas em rios que arrastam carros e coleccionam depois mosquitos que anunciam mais malária.

A esperança média de vida dos angolanos, de 64 anos, continua a ser de cerca de vinte anos menos do que a das nações mais longevas do mundo, querido leitor. No Japão, a esperança média de vida é de 88 anos. Mas pior do que isso, os indicadores de qualidade de vida, o acesso ao tal saneamento que estamos sem ele, à água, luz, transportes, habitação, educação, renda, saúde, todos esses indicadores permanecem de tal forma comprometidos para a maioria, que mesmo esses 64 anos de esperança média podem parecer muito quando se vive num inferno como é o caso da maioria que vive abaixo do limiar da pobreza.

Em Angola morre-se muito, morre-se de malária, de acidentes, esta semana o Valor Económico trazia uma reportagem em que ouvia os operadores de transportes a culpar a degradação das estradas pelos acidentes, enquanto as autoridades lhes atiram a responsabilidade pelas mortes. Mas em Angola morre-se de falta de assistência médica de emergência, como se morre de chuvas, se morre de cólera e de outras doenças de miséria e preveníveis, como a dengue, a febre tifoide e a tuberculose, entre outras.

Certa vez um colega de trabalho dizia ao almoço, que se desconfiava fora de prazo, que o corpo do angolano é herói referindo-se a tantas provações, tantos desafios a que está exposto e a que tem de sobreviver...   

O Sindicato dos Médicos voltou a avisar esta semana que o quadro da saúde é extremamente preocupante, “principalmente quando o governo inverte prioridades e investe no sistema terciário em vez de investir na assistência primária, que tem caráter preventivo”.

O médico Adriano Manuel lembrava que a malnutrição crónica, sobretudo em menores de 5 anos, afeta entre 40 e 45% das crianças com menos de 5 anos, comprometendo, por vezes irremediavelmente, o seu desenvolvimento cognitivo futuro. Adriano Manuel assinalou a relevância da despesa em medicamentos que o presidente autorizou recentemente e que os hospitais de forma geral não têm, mas voltou a sublinhar que o problema da saúde reside na ausência de assistência primária, escrevia o Novo Jornal esta semana.

O médico explica como essa inversão é tendenciosa e como o poder favorece a construção de hospitais em detrimento de unidades primárias de saúde para favorecer a sobrefacturação a lavagem de dinheiro que se faz através das grandes infraestruturas que absorvem muito dinheiro... e a propósito de grandes infraestruturas esta semana o presidente autorizou também mais de 11 mil milhões de kwanzas para o pavilhão multiusos do Dundo depois de ter anunciado planos de construção de mais quatro aeroportos com a história do “hub africano” em que o país se deve tornar a tal “placa giratória” que os militontos se orgulham de repetir isto apesar dos vários aeroportos semi-abandonados que aí andam pelo país sem plano mínimo de rentabilização... Mas é com esperança teimosa querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial.

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico