Não a perdoo, senhora Ministra!
Diz a sabedoria popular que "promessa é dívida", mas, no Ministério das Finanças, parece que a dívida é a única promessa que se cumpre com rigor. Recentemente, a nossa ministra Vera Daves de Sousa pediu que a perdoássemos.
Diz a sabedoria popular que "promessa é dívida", mas, no Ministério das Finanças, parece que a dívida é a única promessa que se cumpre com rigor. Recentemente, a nossa ministra Vera Daves de Sousa pediu que a perdoássemos. O pecado? Ter profetizado, em 2020, que, se não batêssemos as botas com a covid-19, os anos seguintes seriam "puro mel". A senhora ministra esqueceu-se de avisar que o "melhor" a que se referia era relativo, tal como é a fome para alguns. Pois bem, ilustre ministra, são infindáveis os motivos pelos quais não nos é permitido assinar essa amnistia espiritual. Mas vou ater-me apenas a alguns. Para o Kwanza, por exemplo, "melhor" significou uma queda livre. Perdoar seria ignorar que a nossa moeda não desvalorizou, simplesmente decidiu fazer um retiro espiritual nas profundezas do abismo. Em 2020, tínhamos medo do vírus. Em 2026, temos medo da prateleira do arroz. Pedir perdão por ter prometido tempos melhores enquanto o preço da cesta básica sobe a um ritmo que os nossos míseros salários não conseguem acompanhar é, no mínimo, brincar com a nossa cara. Quando a ilustre ministra disse que os anos seguintes seriam "muito melhores", talvez estivesse a usar o calendário de outro planeta, onde um ano dura um milénio. Para nós, meros mortais que contamos os dias até 30, o "melhor" tem tido um sabor amargo a austeridade, taxas, impostos e a sensação de que o cinto já não tem mais furos para apertar. Não a podemos perdoar, cara ministra, porque, ao depararmo-nos com o relatório do INE, descobrimos que em 2023, três em cada quatro angolanos não tiveram o que comer. Pedir perdão de barriga cheia é fácil, mas perdoar exige uma paz de espírito que o IVA sobre tudo e mais alguma coisa e a subida dos combustíveis nos roubaram. É difícil abraçar o arrependimento ministerial quando estamos ocupados a tentar decifrar como é que o "crescimento económico" anunciado nas conferências de imprensa nunca chega aos nossos bairros. Diz que os anos seriam melhores, mas esqueceu-se de perguntar às mais de quatro milhões de crianças que estão fora do sistema de ensino. Para elas, o futuro prometido não tem letras nem números, só tem ‘bisno’ na rua e a certeza de que a "Angola do amanhã" é um clube privado onde elas não têm convite. Perdoá-la seria ignorar uma geração inteira condenada ao analfabetismo funcional enquanto o seu Ministério faz contas de somar que nunca batem certo. Talvez o "melhor" a que a ministra se referia fosse a eficiência da repressão. Não podemos perdoar quando a resposta à nossa sobrevivência não foi o pão, mas o chumbo. As mortes de Julho de 2025 continuam frescas na nossa memória. Vidas ceifadas por uma brutalidade policial que trata a fome como um caso de polícia e o protesto como um crime de lesa-pátria. O sangue no asfalto não se limpa com um "desculpem o erro de cálculo". Se a vida está tão "melhor", por que é que a nossa juventude está a dar ‘tirosa’, passando a ser a nossa maior exportação em detrimento do petróleo? Os angolanos não estão a viajar, sua excelência, estão a dar ‘lengueno’… a fugir. É uma diáspora de desespero, uma corrida para o exterior onde o sonho é ser estrangeiro, porque ser angolano em Angola tornou-se um desporto de alto risco. Lamento desapontá-la, senhora ministra, mas o perdão está no céu. Na terra, mais concretamente aqui na banda, trabalhamos com factos. E o facto é que 2020 pareceu um aquecimento para uma maratona de obstáculos que ainda não terminou. Concluindo e com todo o respeito, ilustre ministra, é difícil aceitar as suas desculpas quando o "melhor" que nos deu foi a escolha entre a fome, a bala e o exílio. O perdão está guardado na mesma gaveta onde a senhora e os seus pares guardaram a prosperidade que nos prometeu em 2020. Se por acaso souber onde é esse esconderijo, que os vá buscar. Bem, eu sei que não posso falar por todos. Talvez haja que tenha a coragem de perdoar a ministra… Eu cá é que não!
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 27 de Fevereiro de 2026




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