Parecer Técnico sobre a situação das chuvas em Benguela

15 Apr. 2026 Opinião

A situação que se vive actualmente na província de Benguela, marcada por chuvas torrenciais intensas, configura uma das mais graves crises ambientais e humanitárias registadas nos últimos tempos em Angola.

Parecer Técnico sobre  a situação das chuvas em Benguela

A situação que se vive actualmente na província de Benguela, marcada por chuvas torrenciais intensas, configura uma das mais graves crises ambientais e humanitárias registadas nos últimos tempos em Angola. As inundações severas resultaram em perdas de vidas humanas, destruição de habitações, deslocamento de milhares de famílias e danos significativos em infraestruturas essenciais. Este cenário evidencia não apenas a força dos fenómenos naturais, mas também fragilidades estruturais no ordenamento do território, na gestão ambiental e na preparação para eventos climáticos extremos. Entretanto, enquanto Presidente da Minuto Verde – Organização Não Governamental de Defesa da Natureza e do ambiente– entendo que esta situação deve ser analisada sob uma perspectiva técnica e preventiva, tendo em conta os impactos ambientais e as medidas que poderiam ter sido implementadas para reduzir os efeitos desta calamidade.

As chuvas intensas que atingiram Benguela resultam de fenómenos naturais associados à variabilidade climática, agravados pelos efeitos das alterações climáticas globais, que têm aumentado a frequência e intensidade de eventos extremos. Contudo, os impactos observados foram amplificados por factores de origem humana, nomeadamente a ocupação desordenada de zonas de risco, como margens de rios e áreas de drenagem natural, a insuficiência e degradação dos sistemas de drenagem urbana, o desmatamento e a redução da cobertura vegetal, bem como a deposição inadequada de resíduos sólidos que obstruem valas e canais de escoamento.

O transbordo do Rio Cavaco, provocado pelo rompimento de um dique de protecção, constitui um exemplo claro da vulnerabilidade das infraestruturas hidráulicas e da necessidade de manutenção e reforço das mesmas. As inundações resultantes afectaram bairros inteiros, provocando a destruição de habitações, interrupção de serviços essenciais, colapso de infraestruturas rodoviárias e ferroviárias, bem como a paralisação de actividades económicas.

Do ponto de vista ambiental, os impactos são profundos e preocupantes. Regista-se uma acentuada degradação dos solos, com fenómenos de erosão e perda de fertilidade, além do assoreamento de rios e canais. A contaminação dos recursos hídricos constitui outro risco significativo, uma vez que as águas das chuvas entram em contacto com resíduos sólidos, esgotos e outras substâncias poluentes, tornando-se veículos de transmissão de doenças como cólera, diarreias e infecções diversas. A perda de biodiversidade, resultante da destruição de habitats naturais, e a devastação de áreas agrícolas, comprometendo a segurança alimentar, são igualmente consequências relevantes.

Importa salientar que existem estudos técnicos e recomendações previamente elaborados que apontam para a necessidade de implementação de medidas de prevenção, tais como o reforço dos sistemas de drenagem, a protecção das bacias hidrográficas, o ordenamento adequado do território e a construção de infraestruturas resilientes às alterações climáticas. A insuficiente aplicação destas medidas contribuiu para a dimensão dos danos actualmente registados.

A situação em Benguela demonstra que os desastres naturais são frequentemente agravados por falhas estruturais e ausência de planeamento adequado. As chuvas, por si só, não constituem o principal problema, mas sim a falta de preparação e de políticas eficazes de gestão ambiental e territorial. Torna-se evidente a necessidade urgente de uma abordagem integrada, preventiva e sustentável, que permita reduzir os riscos e aumentar a capacidade de resposta às mudanças climáticas. Ignorar estas lições poderá resultar na repetição de cenários semelhantes, com consequências ainda mais graves para as populações e o ambiente.

Face ao exposto, quero recomendar a adopção de medidas concretas e estruturantes, nomeadamente: o reforço do ordenamento do território, com a proibição da construção em zonas de risco e o reassentamento progressivo de populações vulneráveis; o investimento em infraestruturas resilientes, incluindo sistemas de drenagem urbana eficazes e manutenção regular de diques e canais; a promoção de acções de  reflorestamento e protecção das margens dos rios, visando melhorar a capacidade de absorção dos solos; a melhoria da gestão de resíduos sólidos, evitando a obstrução dos sistemas de escoamento; a implementação de sistemas de monitorização e alerta precoce para cheias; o reforço da educação ambiental e do envolvimento comunitário na prevenção de riscos; e, de forma prioritária, a elaboração e implementação de um plano integrado de resposta às alterações climáticas, que envolva o Governo, parceiros internacionais, academia e sociedade civil.

Queremos reafirmar que a prevenção, o planeamento e a acção coordenada são essenciais para proteger vidas, preservar o ambiente e garantir um futuro mais seguro e sustentável para Angola.