Sem BI, os mortos também não votam?
Já cheira mesmo a eleições… Estávamos nós aqui, entre a falta de luz e de água, a subida do preço de tudo e mais alguma coisa, a perguntar-nos o que mais nos falta. Saneamento? Educação? Saúde? E quando a nossa inspiração não nos levou a lugar algum, eis que surge a sabedoria do filantropo das massas, Bento Kangamba.
Já cheira mesmo a eleições… Estávamos nós aqui, entre a falta de luz e de água, a subida do preço de tudo e mais alguma coisa, a perguntar-nos o que mais nos falta. Saneamento? Educação? Saúde? E quando a nossa inspiração não nos levou a lugar algum, eis que surge a sabedoria do filantropo das massas, Bento Kangamba. Segundo o nosso filósofo predilecto faltam-nos as maratonas… Para quê saneamento básico ou hospitais funcionais quando podemos ter uma coluna de som a estourar-nos os tímpanos e birra gelada a circular? Parece-me uma estratégia brilhante: se não se consegue resolver a fome, aumenta-se o volume da música até que ninguém consiga ouvir o estômago a roncar. Ah, mas isso até parece maldade a minha. Claro que se vai resolver o problema da fome. Afinal o Estado é pai, não é padrasto. E para provar este amor incondicional pelos filhos foram aprovados 100 milhões de dólares em garantia soberana para segurar os preços da cesta básica nos próximos meses. A ideia é garantir cestas com qualidade e a preços acessíveis. O timing, claro, é apenas um detalhe. Pura coincidência. Não tem nada a ver com o facto de as pessoas estarem a começar a olhar para as panelas vazias com demasiada atenção, à medida que nos aproximamos a passos largos de 2027. É apenas... generosidade sazonal. Enquanto isso, o MPLA, partido que se acha o único capaz de governar Angola, decidiu imitar os Testemunhas de Jeová. De repente, aquele senhor de fato caro, que normalmente só vês na televisão, ou quando muito através dos vidros fumados do V8, a passar por ti em ‘bisga’ porque é importante demais para ficar parado no trânsito, vai bater-te à porta. Já imagino a cena: batem à porta, dão um sorriso amarelo e perguntam "como vai a vida?". Para fechar com chave de ouro ganhas um boné e uma promessa de que "o melhor está por vir", basta que em 2027 votes nos ungidos por Deus. Os mesmos ungidos que decidiram que a partir de agora a morte se tornou um privilégio de quem tem a documentação em dia, ou seja, só se regista o morto se ele apresentar o Bilhete de Identidade. No fundo, é um incentivo à longevidade: se perderes o BI, tornas-te imortal por decreto. E agora pergunto eu, ‘like Geralda Embaló’, se o BI agora é o passaporte para o cemitério, será que nas próximas eleições os mortos sem documento também vão perder o direito de votar nos mesmos de sempre?
*Dias Andados, 20 DE MARÇO




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