E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende depois de uma semana em que a nossa actualidade ‘bateu mais’ do que a internacional que foi marcada pela visita de Trump à China um encontro interessante pela dimensão da comitiva de bilionários que o acompanhou, com Elon Musk à cabeça, num sinal claro de que a China tem demasiadas cartas na mão no que toca à geopolítica mundial que inclui o acesso às terras raras que são centrais para o desenvolvimento tecnológico, mas interessante também pelos temas em cima da mesa temas como a guerra que o americano havia anunciado que iria durar dias e que se arrasta criando pressões inflacionárias pelo mundo fora.
Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende depois de uma semana em que a nossa actualidade ‘bateu mais’ do que a internacional que foi marcada pela visita de Trump à China um encontro interessante pela dimensão da comitiva de bilionários que o acompanhou, com Elon Musk à cabeça, num sinal claro de que a China tem demasiadas cartas na mão no que toca à geopolítica mundial que inclui o acesso às terras raras que são centrais para o desenvolvimento tecnológico, mas interessante também pelos temas em cima da mesa temas como a guerra que o americano havia anunciado que iria durar dias e que se arrasta criando pressões inflacionárias pelo mundo fora.
Na Índia, o governo veio pedir aos seus cidadãos que restrinjam os seus movimentos, que trabalhem a partir de casa, que não viajem sem absoluta necessidade, porque o racionamento de combustível devido a essa guerra tem de continuar a lembrar dos downsides da globalização e dos tempos de má memória da pandemia da Covid-19 em que se sacrificava a produtividade com instruções de ficar em casa.
A propósito de má memória e olhando para a semana entre nós que foi marcada pela saída do chefe 'do armário' de onde fingia mal que não ia ser candidato à presidência do partido que governa, e agora pergunto eu, porque foi que decidiu atrelar o anúncio da sua candidatura à vala das vítimas do 27 de Maio? Curiosidade académica, porque estudei o tema do marketing político no mestrado, como é que essa associação entre anúncio de candidatura e vala de um dos piores massacres em registo em África e no mundo, como é que essa associação se lhe tornou na cabeça uma boa ideia, uma associação positiva, vencedora?
Um episódio carregado de dor, de feridas abertas e que voltam a sangrar a cada remexo ou menção leviana, um episódio em que as respostas necessárias para algum tipo de luto e reconciliação verdadeiros continuam a ser evitadas porque os familiares das vítimas estão aí à espera dessas respostas, como é que um tema com esta carga emotiva, histórica, mas simultaneamente pesada e condoída para os angolanos e para o MPLA em particular, porque foi um massacre sancionado pelo MPLA, contra si mesmo, e que feriu profundamente o tecido social e diria mesmo o ADN identitário da Nacão, como é que este tema pode servir para atrelar a um início de campanha política? O que promete uma campanha que começa assim?
Não me atrevo a tentar imaginar o que sentiram os familiares de pessoas que foram assassinadas pelo Estado que as devia proteger, ao ouvir, do nada, nomes dos seus mencionados como tendo sido encontrados na dita vala, sem notificação prévia sem informação processual, e ao ouvir no dia seguinte o chefe anunciar que quer continuar o trabalho que vem vindo a fazer como motorista dos destinos da nação, mas agora a partir do partido que governa há meio século e que é o mesmo responsável pela vala... Não me atrevo a imaginar, mas também não é necessário, porque a associação de órfãos do 27 de maio M27 emitiu um comunicado esclarecedor sobre o que outra associação em memória do massacre ouvida e citada pelos meios públicos que divulgaram a reportagem considerou “uma vitória”: “É incompreensível e doloroso que as famílias das vítimas não tenham sido previamente informadas nem devidamente envolvidas num processo que lhes diz respeito diretamente”, pode ler-se no comunicado que diz ser “mais preocupante ainda o surgimento de uma lista de nomes alegadamente correspondentes aos perfis das ossadas encontradas no Cemitério do 14, sem que tenha sido explicado de forma transparente à sociedade e às famílias de onde provém essa lista, quais os critérios utilizados, quais os elementos probatórios existentes e que metodologia científica sustenta tais associações”. O jornalista e jurista William Tonet lembrou que nomes que constam da lista das assadas encontradas no km 14 foram enterrados noutras províncias e que entre os nomes da lista constam nomes de pessoas vivas.
O termo mais adequado que li foi "necrotério político" do opinion maker e jornalista Edson Neto, e que diz o seguinte sobre o anúncio da vala “O timing desta publicação é de um oportunismo perverso: No momento em que a candidatura de João Lourenço enfrenta o risco real de impugnação por ilegalidades na comissão preparatória, o sistema agita as ossadas para saturar a agenda pública com o peso do trauma.”
“Este Caderno 2 não é um documento de ciência; é uma certidão de óbito colectiva passada por conveniência eleitoral. Parem de brincar com o que é sagrado. A memória dos nossos mortos não é um activo de campanha, nem as valas comuns são palanques eleitorais.” Edson começa por descrever melhor do que poderia fazer “uma encenação forense de mau gosto, onde o rigor se verga à conveniência de um calendário político que tresanda a desespero institucional.”
E o resto da semana correu de modo a confirmar esse “desespero institucional”. Higino Carneiro foi o alvo de tantos ataques sincronizados que de facto leva a pensar que o chefe, que vivia enaltecendo a coragem que tinha por combater poderes instalados (depois de deixarem de ser poder naturalmente), poderá temer a sua candidatura a tal ponto que nem se apercebe do quão primárias se vão tornando essas coincidências de timing que o visam favorecer na corrida ao cadeirão (onde parece ‘ter colado’)… Higino foi intimado para ir à PGR, assim como terão sido, de acordo com reportes, a sua filha e outros membros da família. E não podemos esquecer que o chefe gosta de ir atrás dos filhos dos que considera seus opositores, que o digam os filhos de José Eduardo dos Santos, que lá saberá por que o pôs no poder. Viu as suas assinaturas invalidadas, vê o pessoal que apoia a sua candidatura vítima de perseguição, já aí há responsáveis de caps a serem exonerados "por congeminarem contra o líder", os seus signatários não conseguem pagar quotas, as regras mudam no meio do jogo e de acordo com a vontade do chefe, e vê o seu histórico de grande general associado ao tenebroso 27 de Maio, ele que se terá gabado certa vez de ter capturado Nito Alves.
Carneiro já está a provar do veneno especial maturado pelo partido que quer liderar e que há décadas se tornou proficiente em destruir tanto carreiras como vidas dentro e fora da esfera política ao sabor da vontade de quem está no trono.
Só é pena que esse veneno não fique dentro das portas do partido e estravasse para danificar, para constranger, para colocar bem aquém do que poderia ser a vida dos milhões de angolanos que governa. Mas é com esperança sempre querido leitor, que marcamos aqui encontro aqui e até à próxima, na sua Rádio Essencial.




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