O que nos vão levar desta vez sem nos apercebermos?
Quando pensámos que o cardápio do MPLA já não tinha novos pratos para nos embrulhar o estômago, eis que até o próprio Deus exclama: "Meu Deus!" A semana começou com aquele anúncio que "apanhou todos de surpresa".
Quando pensámos que o cardápio do MPLA já não tinha novos pratos para nos embrulhar o estômago, eis que até o próprio Deus exclama: "Meu Deus!" A semana começou com aquele anúncio que "apanhou todos de surpresa". João Lourenço quer mais um mandato na liderança do partido e o Bureau Político, fiel como um cão de guarda, aplaudiu de pé a magnânima vontade de o todo-poderoso da vez querer eternizar-se. Mas conto eu ou contam vocês? Bem, na verdade, JLo bem sabe que este suporte "incondicional" tem prazo de validade. Daí a pressa em fabricar um sucessor que lhe garanta uma reforma dourada. Esperemos que o ‘botão não saia à calça’, porque o feitiço tem o hábito de virar contra o feiticeiro... e nós já vimos esse filme com o "outro"! Mas o que realmente desafia as leis da física e deixa Einstein a rebolar na cova não é a vontade de ficar, é a logística supersónica da recolha de assinaturas, que pornograficamente atropelou os prazos morais e lógicos. Dizem que, em menos de 48 horas, e, diga-se, durante o fim-de-semana, milhares de militantes, de Cabinda ao Cunene, assinaram a folha.
Quanta eficiência! Se o Estado funcionasse com a mesma velocidade com que se mobilizam canetas para a "continuidade", não haveria um único buraco por tapar nesta Luanda nem uma criança fora da escola. Cheira a batota? Claro que cheira! Mas quem somos nós? A verdade é que os "camaradas" já nem se dão ao trabalho de nos chamar burros, eles simplesmente estão a marimbar-se para o que nós pensamos. Afinal, o poder deles não emana do povo, emana da falta de vergonha. E enquanto uns aceleram na pista do "fica mais um bocado", outros são obrigados a meter uma marcha-atrás de emergência. Falemos de Higino Carneiro. O processo estava lá, quietinho, arquivado há menos de um mês, sem tempo sequer para ganhar o pó das gavetas do esquecimento. E de repente, pah! A PGR teve um estalo de lucidez. Afinal o crime de peculato não precisa de queixa! Há um mês, quando o queixoso desistiu "por falta de provas", a lei era uma. Hoje a lei acordou com outra disposição. Vá-se lá entender…
Mas como nada está tão mal que não possa piorar, e para endossar este roteiro de realismo mágico, enquanto no topo se discutem mandatos, assinaturas recolhidas à velocidade da luz e processos ressuscitados, cá em baixo, na base, o povo anda aterrorizado com o "roubo das coisas”. A polícia, muito solícita, diz que é boato, que está tudo no lugar e "perfeitamente funcional". Mas convenhamos, num país onde assinaturas aparecem por artes mágicas e processos judiciais desaparecem e reaparecem como num truque de cartas, quem é que pode culpar o cidadão de acreditar em desaparecimentos misteriosos? Cuidado com os vossos bolsos, com as vossas assinaturas e... pronto, cuidem do resto também. Porque em Angola, quando o "mágico" entra em cena, ninguém sai ileso. No fim do dia, a pergunta que fica no ar é: o que nos vão levar desta vez sem nos apercebermos? É o voto, é o dinheiro público ou é mesmo a lógica?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 15 de Maio de 2026




TAAG é a companhia mais ineficiente do mundo na utilização dos aviões