AS MÚLTIPLAS DE FACHADA

 

Ao que tudo indica, João Lourenço não quer olhar a meios para enterrar as múltiplas candidaturas no Congresso de Dezembro próximo.

AS MÚLTIPLAS DE FACHADA
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Ao que tudo indica, João Lourenço não quer olhar a meios para enterrar as múltiplas candidaturas no Congresso de Dezembro próximo. A convocação de Higino Carneiro à Procuradoria-Geral da República, dois dias depois de João Lourenço formalizar a sua candidatura, é esclarecedora. Mas antes o presidente do MPLA Já tinha feito o suficiente para vincar que não haverá mais de um candidato em Dezembro. O primeiro facto foi a imposição do apoio do Bureau Político à sua recandidatura. Ainda que Jú Martins, o seu ‘mandatário’, tenha tentado normalizar a postura do Bureau Político, o que ocorreu foi uma violação do princípio da igualdade de tratamento entre candidatos. Violação que só pode ser explicada com o entendimento de que, na cabeça de João Lourenço, ele será candidato único.

O ritual que se seguiu ao apoio do Bureau Político não foi menos esclarecedor. Um dia depois de João Lourenço comunicar a sua recandidatura, através do Bureau Político, Mara Quiosa anunciou que o seu chefe já tinha mais do que o dobro das assinaturas exigidas estatutariamente. No dia seguinte a esse anúncio, Jú Martins desembarcou na sede do MPLA para formalizar a candidatura com dezenas de caixas com fichas preenchidas de 21 províncias. Não há ciência nem magia que esclareça tamanha rapidez. A única explicação razoável, para dizer mínimo, é que tudo já estava necessariamente a postos. E essa preparação prévia, nos termos como se apresenta, não deixa de ser outra violação grosseira ao princípio da igualdade. Mas a violação dos estatutos, com o uso abusivo dos órgãos do partido, é apenas um dos meios de que João Lourenço se serve para travar as múltiplas candidaturas. O mais radical é a instrumentalização da justiça, como o dirá Higino Carneiro. O general e pré-candidato, ao que consta, foi chamado à PGR para responder a um processo cujo queixoso decidiu desistir há algum tempo. O episódio é, entretanto, mais do que suficiente para criar o ruído necessário que fundamente ilegalmente a sua exclusão do Congresso por razões de integridade e moralidade. Contas feitas, até porque se julga de facto o rei absoluto, João Lourenço devia ter optado por decidir, desde o primeiro minuto, que não haveria múltiplas candidaturas no IX Congresso. Pouparia o esforço a muito gente e ao seu partido de mais uma peça teatral ridícula.