E agora pergunto eu...
Seja bem-vindo, querido leitor, a este seu espaço onde perguntar não ofende; depois de uma daquelas semanas em que, como descreve a jornalista catedrática que preside à comissão de carteira e ética, Maria Luísa Rogério, “os deuses devem estar loucos”…
Devem estar loucos e com algum grave desvio de natureza sexual… Dos dois lados da bancada parlamentar, do governo e da oposição, vieram histórias de vídeos pornográficos, ao estilo Baltazar, alguns alegadamente gravados pelo principal protagonista, outros por outrem, talvez para fins de chantagem ou coação de alguma estirpe, com alegações de uso de inteligência artificial (que pouco pegaram), um carnaval autêntico, que fez palidecer a actualidade internacional. Isto, em cima dos múltiplos alegados desaparecimentos de órgãos genitais de facto que já obrigaram a polícia a pronunciar-se, enfim, só pode: “os deuses devem estar loucos.”
O filme sul-africano que leva esse título do ano de 1980 e que vi várias vezes na infância, tem muitas afinidades conosco. O herói é Xi de uma comunidade San, como é San a minha família no sul de Angola Mukubal, daquelas tribos que ali andam há centenas de anos. Xi encontra uma garrafa de Coca-Cola, atirada da janela de um avião, que julga ser um presente dos deuses e leva para a sua comunidade. A garrafa de coca-cola rapidamente se torna o centro de toda a actividade da comunidade servindo para cartar a água, alisar peles, fazer música, moer farinha até que as disputas pelos múltiplos usos da garrafa que se tornara imprescindível, símbolo de desenvolvimento, de status, resultam em violência entre os membros da tribo e Xi decide devolvê-la aos deuses, que só poderiam estar loucos quando enviaram uma ferramemta de discórdia quando tudo o que enviaram até então era divino… as frutas, o sol, os animais, as águas, as montanhas, tudo era abençoado, até então.
O filme decorre com Xi a tentar devolver a garrafa aos deuses e a passar por diversas peripécias ao longo do caminho. Faz lembrar da humanidade, com toda a tecnologia que temos nas mãos e que usamos para fins destrutivos, uma tecnologia que não temos como devolver.
Para além da partilha identitária, as afinidades no filme com a realidade angolana são muitas e, com a actualidade citadinha que se julga distante, também as há. Desde já, as crenças que, naquele caso, levaram Xi a julgar a Coca-Cola como enviada pelos deuses.
No nosso caso, as crenças tornam-se crendices, apesar de existirem estudos realizados na Nigéria e no Malawi que apontam que a relação entre o credo na feitiçaria, a escolaridade e o status social, surpreendentemente, é paralela, e não inversa. Quanto mais estatuto social e mais estudos — sendo que um dos estudos foi realizado em meio académico, entre estudantes e professores universitários —, mais crença na feitiçaria há. Estudantes e professores à pergunta “O que torna os países dos brancos mais desenvolvidos? Responderam que o desenvolvimento deve-se a magia que têm e que não partilharam com africanos. Esta lógica derrota qualquer esperança para o futuro do continente. Se os professores e estudantes acreditam que o desenvolvimento vem de magia, então de que vale trabalhar para desenvolver?
Pior do que o custo de oportunidade, do sacrifício da iniciativa do empreendedorismo e da produtividade, as crenças na feitiçaria - diferente dos tratamentos tradicionais que esses são um campo por estudar e com conheceimento milenar que deveria ser documentado e preservado - as crenças na feitiçaria resultam frequentemente em acusações de feitiçaria, de maus espíritos e afins, muitas vezes decretadas não por bruxos, mas por pastores, usualmente contra crianças, algumas com autismo que as torna diferentes, ou contra mais velhos indefesos — porque há sempre uma carga de cobardia associada a estas acusações. Essas crenças tomaram agora, entre nós, a forma de acusações de roubo de genitais.
A moda foi importada. Em Moçambique, são mais de 60 mortos, resultado dessas acusações que levam as multidões a assassinar os acusados das formas mais bárbaras, queimando-os, por exemplo, devido ao que denominam 'magia genital'.
É incrível como toda a superstição africana se foca no mal, no negativo, no trevoso. Não sabemos de bruxos — ou pastores que também fazem acusações de feitiçaria — que encontrem cura para o cancro, para a malária que mata tanta gente entre nós, ou até a cura para os maus políticos, aqueles que, no lugar de trazerem benefícios para a comunidade que lideram ou representam, trazem maus exemplos, vergonha, desgraça familiar, incompetência, má imagem das instituições.
E agora pergunto eu: por que não se juntam todos os bruxos nalguma convenção para garantir que temos boa governação em África, por exemplo? Seria um uso bem mais racional do poder sobrenatural do que a colheita de órgãos genitais alheios…
O racional socioeconómico pode também ser aplicável a essa colheita que, segundo alegam os queixosos, “não deixa lá nada”; teria usos mais racionais do que linchamentos de pessoas nas ruas.
Há vários Estados a nível global que praticam a castração química de predadores sexuais que, se tivessem um ‘bruxo’ que, com um simples toque do ombro, desaparecesse com o órgão que lhes gasta dinheiro a desactivar, provavelmente pagariam fortunas pelo serviço. Há outros potenciais clientes; são estimadas nas centenas as castrações voluntárias por vontade de mudança de sexo, também conhecidas como nulificação, que, em latitudes europeias ou americanas, também iriam beneficiar de uma intervenção mágica que poupasse a cirurgia e lhes resolvesse o que, na sua perspectiva, é um problema. A magia que andamos a linchar nas ruas pode bem valer milhões, querido leitor; no entanto, continuava a ser mais importante que os nossos bruxos se concentrassem numa magia que nos trouxesse melhores governantes. Governantes que, por assumirem a gestão da coisa pública, tivessem a preocupação de trabalhar na aproximação do que parecem ser com o que são, uma aproximação que é a ‘fórmula mágica’ para o caráter. Caracter que é muito as escolhas que fazemos quando ninguém está a ver... É com esperança na magia, sempre, querido leitor, que marcamos aqui encontro até à próxima, na sua Rádio Essencial.




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