Estágio obrigatório em contabilidade: uma exigência para aproximar a universidade do mercado

13 Aug. 2026 Opinião

Recentemente, a Ordem dos Contabilistas e Peritos de Contas (OCPCA) assinou protocolos de cooperação com várias instituições de ensino superior para integrar o Estágio em Ambiente Controlado (EAC) no currículo dos finalistas de Contabilidade e áreas afins. A iniciativa merece atenção porque toca numa fragilidade antiga do ensino da contabilidade no país: a distância entre a formação teórica ministrada nas universidades e as competências exigidas pelo mercado de trabalho. Mais do que uma simples parceria institucional, esta medida deve abrir uma reflexão séria sobre a necessidade de integrar o estágio profissional, de forma obrigatória, no próprio programa académico.

Estágio obrigatório em contabilidade:  uma exigência para aproximar a universidade do mercado

Actualmente, para se tornar contabilista certificado, o candidato deve concluir a licenciatura, solicitar o estágio de formação promovido pela OCPCA, com duração de 10 meses e custo aproximado de 500 mil Kz, e, posteriormente, submeter-se a sete módulos de exames. Este percurso demonstra que a certificação profissional não depende apenas do diploma universitário, mas também da aquisição de competências práticas validadas pela entidade reguladora da profissão. Se a experiência prática é condição relevante para o exercício certificado da actividade, então a sua discussão deve começar ainda na universidade.

O estágio ministrado pela OCPCA procura colmatar a insuficiência de preparo técnico dos recém-licenciados, resultante de modelos curriculares que ainda privilegiam uma abordagem essencialmente teórica. Essa realidade revela uma lacuna estrutural: a universidade forma o estudante no plano conceptual, mas nem sempre assegura a experiência necessária para o exercício seguro e competente da profissão. Na prática, a intervenção da OCPCA acaba por compensar uma fragilidade que deveria ser parcialmente resolvida durante o percurso académico.

A profissão de contabilista exige competências técnicas elevadas, que não se desenvolvem plenamente por meio de formações exclusivamente teóricas. Muitos estudantes concluem a licenciatura sem contacto suficiente com balancetes, Modelo 1, classificação de documentos contabilísticos, apuramento de impostos, elaboração de relatórios e contas ou utilização de instrumentos próprios da área. Essa distância entre o conhecimento académico e a prática profissional fragiliza a confiança do mercado nos recém-formados e dificulta a sua inserção em funções compatíveis com a formação adquirida.

A falta de competências práticas em Contabilidade dificulta a inserção dos recém-licenciados no mercado de trabalho e afecta a qualidade da mão de obra disponível. Quando não encontram enquadramento por via de programas promovidos pela OCPCA ou por empresas, muitos recém-formados permanecem desempregados, aceitam funções não alinhadas com a sua formação ou exercem actividades contabilísticas sem o domínio técnico necessário. Ao contrário do que sucede na medicina, em que a componente prática integra o percurso académico e prepara o futuro profissional para o exercício da actividade, a formação em Contabilidade ainda carece de uma etapa prática estruturada e obrigatória. Sendo uma profissão sensível, com impacto económico para as organizações, para o Estado e para a sociedade, a Contabilidade deve incorporar essa exigência no programa de licenciatura.

A integração do estágio no programa de licenciatura permitiria reduzir custos adicionais para os estudantes, melhorar a preparação técnica antes da conclusão do curso e aproximar a universidade das necessidades concretas do mercado. Também poderia contribuir para diminuir os índices de reprovação nos exames profissionais e elevar a qualidade dos futuros contabilistas. Por isso, importa reflectir sobre a uniformização da grelha curricular dos cursos de Contabilidade, através da OCPCA, em articulação com as instituições de ensino superior.

Portanto, a iniciativa da OCPCA é bem-vinda e deve ser aprofundada. A parceria com instituições de ensino superior representa um avanço importante, mas não deve ser vista como solução isolada. A formação promovida pela OCPCA continuará a ser necessária para profissionais e estudantes que pretendam actualização, reforço técnico ou certificação complementar. Contudo, para os estudantes em formação inicial, a experiência prática deve começar ainda na licenciatura, de forma estruturada e obrigatória. Só assim será possível formar contabilistas mais preparados, reduzir barreiras de acesso ao mercado e fortalecer a qualidade da profissão contabilística em Angola. Afinal, uma licenciatura em Contabilidade que prepara apenas para conhecer a teoria, mas não para exercê-la com segurança, permanece incompleta perante as exigências reais da profissão.