Numa clara aposta ao agronegócio

Governo incentiva jovens a verem o campo como o “novo escritório” e não apenas como subsistência

01 Jun. 2026 Economia / Política

O Governo está a apostar em campanhas publicitárias para atrair jovens para o agronegócio. Um dos anúncios destaca a terra como o “novo escritório” e apresenta o sector como um futuro “seguro”, que tem gerado vários postos de trabalho.

Governo incentiva jovens a verem o campo como o “novo escritório” e não apenas como subsistência
DR

Nas várias campanhas, o Governo destaca que a agricultura não “é coisa do passado” e que a ideia não é que a lavoura seja apenas um meio de subsistência, mas sim um negócio. Nas redes sociais do Governo de Angola, há ainda destaque para programas ligados ao sector, como o Plano Nacional de Fomento para a Produção de Grãos (PLANAGRÃO) que, segundo o Executivo, já criou vários postos de trabalho, e o Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI). 
O discurso e as campanhas de publicidade que têm sido feitos por vários membros do Governo revelam a importância que o sector tem tido nos últimos anos para o Executivo liderado por João Lourenço. Recentemente, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, afirmou que a aposta fez com que o sector agrícola se tornasse o maior contribuinte para o Produto Interno Bruto (PIB), com uma participação de cerca de 25%, ultrapassando o petróleo, que recuou para menos de 15% da estrutura produtiva nacional. Esta aposta é, contudo, questionada face a algumas decisões que têm sido tomadas pelo Governo. Uma dessas decisões prende-se com o corte na aquisição de fertilizantes para reforçar a produção alimentar nacional e garantir a continuidade dos programas de apoio à agricultura familiar. 
 
O Governo vai disponibilizar 24 milhões de dólares para a aquisição de aproximadamente 34.100 toneladas de fertilizantes. Este montante, contudo, não é suficiente para cobrir as necessidades de consumo do país, estimadas em 800 mil toneladas anuais. No ano passado, o Executivo aprovou uma verba de 100 milhões de dólares para a compra de 180 mil toneladas destinadas ao apoio à agricultura familiar. Em comparação com esse período, o valor agora aprovado sofreu uma redução de 76% (76 milhões de dólares) no investimento canalizado para o setor agrícola. 
Recentemente, ao Valor Económico, a Acção Para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA) considerou que o valor e as quantidades que o Governo prevê adquirir são "insuficientes" e "exíguas", não atendendo à procura do país e comprometendo a produtividade. O director-geral da ONG, Simione Chiculu, recorda que a maior parte das terras aráveis do país, especialmente no planalto central, necessitam de correcção de solos e do uso de fertilizantes. O responsável da ONG lamentou ainda que, frequentemente, os discursos positivos dos governantes não sejam compatíveis com a prática e com a atenção dada à agricultura. Como exemplo, cita a redução das verbas disponibilizadas no actual Orçamento Geral do Estado (OGE) em comparação com o ano anterior.