O BILIÃO QUE ANGOLA CONTINUA A DESPERDIÇAR
Num contexto em que as remessas africanas crescem de forma estrutural e se consolidam como uma das fontes mais estáveis de financiamento externo, Angola permanece no último lugar em África na captação destes fluxos, evidenciando a ausência de uma estratégia consistente de mobilização da diáspora.
Num contexto em que as remessas africanas crescem de forma estrutural e se consolidam como uma das fontes mais estáveis de financiamento externo, Angola permanece no último lugar em África na captação destes fluxos, evidenciando a ausência de uma estratégia consistente de mobilização da diáspora.
Os dados ajudam a dimensionar o contraste. No primeiro trimestre, a necessidade de financiamento da economia angolana aumentou mais de 80%, para cerca de 2 biliões de kwanzas. Em paralelo, Angola regista apenas cerca de 83 dólares per capita em remessas de emigrantes, o valor mais baixo entre 48 países africanos analisados pelo Banco Africano de Desenvolvimento, face a economias como a Nigéria (10.167 dólares), Quénia (9.251), Gâmbia (7.302), Egipto (6.133) e o Senegal (5.058).
O que estes países evidenciam é que as remessas não são um acaso. São o resultado de políticas activas de ligação económica à diáspora, assentes em enquadramento institucional, confiança financeira e incentivos à transferência formal de recursos. Na Nigéria, por exemplo, a criação da Nigerians in Diaspora Commission (NiDCOM) institucionalizou a relação com os emigrantes, transformando-os num actor económico estruturado.
Em Angola, o contraste é mais político do que técnico. O discurso oficial oscila entre o apelo ao “vínculo com a terra” e a ausência de mecanismos concretos para canalizar esse potencial. Em Abril de 2024, o Presidente João Lourenço sublinhava que os cidadãos “vivem ali onde se sentem bem” e que o essencial era manter o vínculo com o país, recordando a importância das raízes e da família.
Já em Agosto de 2025, o tom tornou-se mais instrumental. A diáspora passou a ser descrita como “uma fonte inestimável de conhecimento, de experiência e de divulgação da nossa cultura além-fronteiras”, sendo chamada a participar na transferência de conhecimento e tecnologia e na aceleração da inovação. “Angola precisa de vós”, afirmou o chefe de Estado.
A evolução discursiva é relevante, mas insuficiente sem arquitectura institucional e financeira. Como transformar esse capital em fluxos de investimento, poupança e remessas regulares?
O contraste torna-se ainda mais expressivo quando se olha para a dinâmica estrutural das remessas no continente. O número de africanos a viver no exterior mais do que duplicou, passando de 21,2 milhões em 2000 para 45,8 milhões em 2024, uma taxa média de crescimento anual de 3,3%. No mesmo período, as remessas por membro da diáspora aumentaram de 702 dólares para 2.434 dólares.
Olhando para o futuro, as projecções apontam para uma transformação ainda mais profunda. Os fluxos de remessas da diáspora africana poderão ultrapassar 1 bilião de dólares até 2050. Para além da escala, avisa o Banco Africano, trata-se de uma fonte de financiamento com uma característica crítica: a sua estabilidade. As remessas são cerca de três vezes menos voláteis do que o investimento directo estrangeiro, tornando-se um dos pilares mais fiáveis de financiamento externo em economias emergentes.
Sem uma estratégia consistente de mobilização da sua diáspora, Angola corre o risco de permanecer à margem de uma das mais relevantes transformações financeiras do continente africano — não por falta de potencial, mas por ausência de arquitectura para captá-la.







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