MPLA e as suas makas…
E mais uma semana se passou…
Esta começou com aquele aperto de mãos que toda a gente sabe que vale menos que todas as promessas de campanha de João Lourenço, cuja materialização vimos no binóculo. Adalberto Costa Júnior foi chamado ao Palácio Presidencial e levou debaixo do braço o seu "Pacto de Estabilidade", uma proposta da UNITA, que segundo eles, visa garantir que o país não desabe nas próximas curvas políticas. A resposta do Executivo foi peremptória. Um redondo, sonoro e institucional NÃO. Para os donos do poder não há, em Angola, “razão objectiva, política ou institucional que justifique a aprovação de um pacto para estabilidade e reconciliação nacional”. Pois claro. A paz está tão consolidada que propor estabilidade é quase uma ofensa à nossa perfeita e inabalável harmonia. Quem fala em crise com certeza vive em outro país. E como teimoso sofre, ACJ diz que vai levar a proposta ao parlamento. Mas me digam só: se o chefe falou não, os súbditos é que vão falar sim? Essa inquebrantável esperança de lutar dentro de instituições já não é resiliência, já soa a infantilidade política. Mas pronto, vamos só já sentar e esperar pra ver. Enquanto a estabilidade oficial vai de vento em popa, a estabilidade digital do regime sofreu um ligeiro sobressalto. Vazaram vídeos para maiores de 18 anos atribuídos ao homem forte e mandatário da candidatura de João Lourenço. O cenário da acção? Alegadamente, os próprios gabinetes da sede do partido.
É bom ver que, apesar da crise económica, a dedicação ao "trabalho de partido" continua em alta, com sessões extraordinárias que vão muito para além do horário de expediente. Se o objetivo era mostrar dinâmica, proximidade e "dar o corpo ao manifesto", o mandatário levou a diretriz demasiado à letra. Resta saber se o manual de funções do partido previa aquele nível de... envolvimento com as bases. Agora vejam só a imponência da sede do partido, novinha em folha e acabada de inaugurar a preço de ouro, foi rebatizada pelo humor popular. Agora, a imponente estrutura é carinhosamente chamada de "hospedaria". Mais uma maka para gerir num partido que já tem a cabeça em água. Ainda no capítulo do maioritário, mais concretamente quanto à democracia interna, a subcomissão de candidaturas veio a público com uma novidade bombástica que apanhou um total de zero pessoas de surpresa: até ao momento, existe apenas uma candidatura validada. Isso mesmo. Adivinhou: a de João Lourenço. Pudera! Num campeonato onde o mesmo homem dita as regras, é dono da bola, do campo, joga a avançado e ainda se farda de árbitro, naturalmente só joga quem ele quer e se ele quiser! A competição que se quer renhida, está com cara de que o candidato único vencerá por esmagadora maioria de si mesmo.
E como o chefe joga em todas as posições, e depois de ele próprio quase ter chegado à lua, decidiu agora dar uma lição de austeridade à nossa fidalguia fardada e engravatada.
O PR decretou a limitação das viagens ao exterior para generais e gestores públicos. Acabou-se o recreio! Aquela rotina exaustiva de ir a Paris “para conferências”, a Lisboa "fechar negócios estratégicos" ou ao Dubai "estudar parcerias", sem que façam parte do calendário oficial, sofreu um corte de asas. Agora, para apanhar o avião, os nossos generais e gestores de topo vão ter de pedir autorização e justificar muito bem o passeio. Imagino o pânico nos corredores do poder, com a nossa elite subitamente condenada a ficar mais tempo no próprio país que governa. Resumindo, para que serve um Pacto de Estabilidade se a receita do sucesso passa por ter um candidato único que dita as regras, generais de asas cortadas em terra, e um mandatário tão dedicado que transformou a sede do partido no mais recente alojamento local do país?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 22 de Maio de 2026




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