O drama da caixa térmica
Diz o povo, na sua infinita sabedoria, que “em panela que muito se mexe, ou queima o fundo ou salta a tampa”. Pois bem, no nosso quintal político, foi a tampa da caixa térmica a saltar.
Diz o povo, na sua infinita sabedoria, que “em panela que muito se mexe, ou queima o fundo ou salta a tampa”. Pois bem, no nosso quintal político, foi a tampa da caixa térmica a saltar. E o cheiro que de lá sai não é de peixe fresco da Ilha, mas de um mofo guardado desde 2022. De um lado, temos Abel Chivukuvuku, que volta e meia se vê embrulhado na trama de “caixas térmicas” recheadas de notas. O mesmo Abel, que nos últimos tempos parece ter acordado com uma alergia crónica ao Galo Negro, transformando a UNITA no seu alvo predilecto. Esqueceu-se, porém, de que quem tem telhados de vidro não deve jogar pedras ao vizinho. O aliado de ontem, que dividia o palanque e os sorrisos na FPU, hoje é o rival a abater. Mas eis que entra em cena Adriano Sapinala, que decidiu, subitamente, refrescar-nos a memória. Em 2022, quando o “casamento” da FPU era a promessa de salvação, o silêncio da UNITA sobre a ‘tala’ caixa era absoluto. Naquela altura, o conteúdo da caixa térmica não cheirava mal, pelo contrário, parecia o perfume ideal para o banquete da coligação. Por que razão a verdade só ganhou pernas agora em 2026? Talvez porque Chivukuvuku decidiu bater com a porta. Como se diz por aí, quando se zangam as comadres descobrem-se as verdades. E para fechar com chave de ouro todo este teatro, Abel Chivukuvuku, ferido na sua honra, ameaça agora processar Sapinala. Um promete o tribunal, o outro promete a prova, e ambos nos entregam um espetáculo deprimente. Abel quer limpar a mancha com papel selado, mas esquece-se de que a fila de pessoas a serem processadas não começa propriamente em Adriano Sapinala. O mais sensato seria começar por quem vazou, ou dando o beneficio da dúvida, por quem montou o tal vídeo. Mas, pelo visto, na lógica daquele que em tempos áureos foi chamado de "monstro da política", uns merecem processo e outros merecem... parabéns. “A vida não acaba hoje” diz o mano Abel… Pois não, mas a coerência parece ter tido morte súbita e a paciência de quem o ouve, certamente, já viu dias melhores. Entre o processo que Chivukuvuku quer meter no Sapinala e os parabéns que deu a quem o expôs, ficamos nós aqui a tentar entender esta "matemática" política. Resta apenas uma pergunta: o processo contra o Sapinala é por ele ter falado a verdade ou por ter esperado até que a caixa térmica derretesse para nos mostrar o que estava lá dentro?
*Crónica do programa ‘Dias Andados’, referente ao dia 8 de Maio de 2026




Manuel Vicente entre as peças de João Lourenço