E agora pergunto eu...

20 Mar. 2026 Geralda Embaló Opinião

Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana que foi marcada pelo Dia Internacional da Mulher e que continuou marcada pela mais recente guerra, uma guerra a que já se aponta a maior disrupção ao mercado energético da história. Uma guerra marcada também pela desinformação e pela dificuldade de se confiar no que se lê e se vê graças à propaganda e à inteligência artificial que põe os EUA Israel e o Irão em chamas com a mesma facilidade que põe Kim Jong Un a dançar Kuduro e a beber Cuca...

E agora pergunto eu...
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Seja bem-vindo querido leitor a este seu espaço onde perguntar não ofende, depois de uma semana que foi marcada pelo Dia Internacional da Mulher e que continuou marcada pela mais recente guerra, uma guerra a que já se aponta a maior disrupção ao mercado energético da história. Uma guerra marcada também pela desinformação e pela dificuldade de se confiar no que se lê e se vê graças à propaganda e à inteligência artificial que põe os EUA Israel e o Irão em chamas com a mesma facilidade que põe Kim Jong Un a dançar Kuduro e a beber Cuca...

A propósito do Dia da Mulher e da guerra no Irão, Kristalina Georgieva, diretora do Fundo Monetário Internacional, deixou esta semana o aviso: “apertem os cintos porque a viagem vai ser atribulada!” Se o novo conflito se prolongar, vai afectar os mercados mundiais fortemente, o crescimento, a inflação, e mesmo que o conflito termine, os choques que se seguem obrigam a “pensar no impensável e a preparar-se para isso mesmo”.

Com um quinto do fornecimento mundial reduzido em 90 por cento devido ao fecho do Estreito de Ormuz, o FMI estima que um aumento do preço da energia de 10 por cento vá gerar 40 pontos de inflação, com a respectiva contracção do crescimento.

E agora pergunto eu: ainda há quem duvide de que esta inflação vai impactar mais a economia angolana do que o preço alto do barril no curto e médio prazo?

Vem à mente a crise financeira de 2009 em que os economistas entre nós juravam que não atingiria Angola, até a crise virar a desculpa favorita para todos os falhanços governativos da década seguinte de contracção e crescimento anémico que o país viveu... Esses economistas visionários lideraram até há pouco a equipa económica do governo e continuam no aparelho de Estado a executar as suas economias com os resultados em termos de crescimento para o país que estão à vista...

A propósito ainda da guerra no Irão, o conselho da chefe do FMI é “o investimento em instituições fortes capazes de suportar a resiliência das economias e o crescimento local”. Um conselho que nos leva a pensar nas nossas instituições que esta semana marcaram a actualidade entre nós.

A instituição CNE voltou a eleger a famosa Indra, empresa espanhola que fornece as soluções tecnológicas há quatro pleitos e que reiteradamente é alvo de críticas por alegadamente coadjuvar a fraude… Reza o ditado que à mulher de César não basta ser séria, há que parecer ser, mas esta mulher do sistema, a CNE, não parece nada preocupada com a sua imagem perante os eleitores, vai eleição vem eleição tudo o que é criticável se mantém quando não se lhe juntam leis duvidosas que visam reduzir a capacidade de controlo do cidadão sobre o seu voto.

Também a propósito de mulher e do dia 8 em que se presta reverência às conquistas sociais, políticas e económicas do género, a primeira-dama - cujo maior handicap político continua na minha opinião a ser o seu marido - assumiu esta semana o lugar deixado vago por Nandó no bureau político do partido que governa. Vale lembrar, ainda, por causa do mês das mulheres, que o dito marido, presidente do partido que governa há 50 anos e da República, assinou recentemente um decreto de actualização do Programa de Privatizações que diz directamente respeito a outra mulher da família, a filha que preside à Bodiva, o órgão que irá ser central para as privatizações a que o decreto 36/26 diz respeito. Entre os activos a privatizar está a Unitel a TAAG a Endiama e por aí fora.

Até agora vimos as privatizações a tornarem-se uma festa privada para conglomerados – algo como antigamente o homem que cunhou o termo ‘marimbondos’ classificava como monopólios, grupos parecidos com a Carrinho que já comprou e entrou nas estruturas accionistas de vários bancos e que se suspeita estar na calha para abocanhar, na Bodiva gerida pela filha do presidente, as accões da Unitel que como as do BFA que já estão no saco. Acções que eram parcialmente da filha do anterior presidente e que o actual fez questão de apreender através do sistema de justiça que controla... um sistema que ainda não conseguiu formalizar a culpa, mas já anda a alienar bens ainda em processo. São as instituições que temos.

Mais mulheres marcaram a actualidade da semana, sendo uma delas Inocência Pinto, que é vice-procuradora-geral da República e um dos nomes mais fortes na corrida à chefia da Procuradoria-Geral da República.      

No ano passado, a propósito de uma reunião entre o comité de protecção dos jornalistas e a Procuradoria-Geral da República para advogar pela descriminalização dos crimes de imprensa, nomeadamente a difamação, tive oportunidade de conhecer pessoalmente a vice-procuradora e de ficar muito bem impressionada com a sagacidade, a capacidade de liderança, de praticidade e de determinação que demonstrou durante o encontro em que esteve a representar a instituição. Percebeu facilmente que Angola criminalizando o jornalismo através dessas leis herdadas do tempo do colono em níveis record na região só perde em termos de imagem internacional e prestígio porque não cumpre com acordos da União Africana e da ONU, perde em termos de tempo porque vários países na região que já descriminalizaram a difamação, de recursos consumidos pelo sistema de justiça que devia estar focado no crime sério, e perde até em compensação para quem se queixa.

Mas pergunto-me, olhando para as nomeações do presidente da República, se as qualidades visíveis da vice-procuradora não serão precisamente o que lhe pode criar dificuldades de acesso ao cargo, como acontece em regimes de meritocracia ausente. De todo o modo, esta corrida é mais uma que destaca o que está fundamentalmente errado com o nosso sistema e que compromete as tais instituições que a chefe do FMI diz serem a esperança para navegar os tempos que se avizinham.

O presidente ter a última palavra sobre o nome que vai assumir a Procuradoria-Geral corrói, a olhos vistos, a independência do órgão, assim como corrói a independência dos tribunais e dos outros órgãos de soberania, em que é o mesmo presidente da República a baralhar e dar as cartas e a ditar quem ganha o jogo. E temos visto os resultados num sistema de justiça do qual o próprio, num exercício de bizarro alheamento como se não compreendesse as consequências dos seus actos, se queixa constantemente de que não é levado a sério em lado nenhum… mas é com esperança querido leitor, que marcamos aqui encontro e até à próxima, na sua Rádio Essencial. 

Geralda Embaló

Geralda Embaló

Directora-geral adjunta do Valor Económico